Pode parecer uma pergunta sem jeito para alguns, assustadora para outros, natural para outros tantos. Mas a verdade é que sendo esta a certeza do ser humano, cada vez vivemos mais longe dela.

Fazemos de conta que não está lá. Retiramos a morte da equação da existência e essa equação passou a ter um resultado estranho. Em civilizações anteriores a morte era encarada de frente, hoje viramos-lhe as costas. A visão da morte é diferente de cultura para cultura e quem lhe atribui significado de alegria ou tristeza somos nós. Uns choram, outros dançam, etc… Talvez nunca a relação com a morte tenha sido tão pobre. Contudo é ignorando este mistério que secamos uma fonte essencial do gosto de viver.

Escondemos a morte como se ela fosse algo sujo e vergonhoso. As crianças não podem ter contacto com ela com medo de se escandalizarem e no entanto são elas que tantas vezes ensinam os adultos a olhá-la. Olhamos para a morte como sendo um filme de terror, um absurdo, um sofrimento inútil e um escândalo insuportável. E no entanto ela é o momento culminante da nossa vida, “o seu coroamento”, o que lhe confere sentido e valor. Será sempre um grande ponto de interrogação que transportaremos connosco todos os dias e ainda assim todos o temos dentro de nós. A morte que um dia havemos de viver talvez seja o que não nos deixa viver à superfície e nos faz querer penetrar no íntimo e profundeza das coisas. Será que pensarmos na nossa morte mexe connosco porque nos faz tirar debaixo do tapete das nossas vidas as questões fundamentais que insistimos em abafar? É sempre mais tarde, quando formos mais velhos, quando tivermos maior sabedoria, quando tivermos tempo… mas talvez esse tempo seja agora.

Andamos a morrer de olhos fechados, mas se calhar precisamos passar a fazê-lo de olhos abertos. Quando estamos conscientes da nossa própria morte vivemos de um outro jeito. Cada um de nós pode preparar a sua própria morte, ainda que não saiba o dia nem a hora da sua chegada. Podemos olhar a morte de frente e fazer da nossa própria morte uma lição de vida para outros. Podemos, e acredito que seria um momento de partilha enriquecedor, falar uns com os outros das nossas mortes, dos nossos medos, dos nossos anseios e desejos.

A ficção da eternidade torna-nos loucos, não o pensarmos sobre a morte. Vivermos como se fosse para sempre torna-nos pesados. Numa altura em que se fala muito sobre meditação poderíamos começar por meditar sobre a nossa própria morte. Ainda que possa parecer contraproducente, pensar sobre a nossa morte em momentos de stress tranquiliza-nos. Coisas que parecem ter uma importância enorme passam a ser apenas aquilo que são…coisas. Há quem acredite que o facto de nos imaginarmos mortos é uma boa medida preventiva para a ansiedade do quotidiano. Somos assim… feitos para morrer. E não é nenhuma tragédia. Na partilha teremos o ganho de encontrarmos outros tantos iguais com as mesmas fragilidades e a mesma força.

“A morte pode acontecer-nos a qualquer momento e se for amanhã, pois muito bem, que seja! Brindemos à vida… e à morte! O importante é desfrutar da existência e não quanto tempo ela irá durar.”