“Os cuidados paliativos são cuidados de saúde preventivos: previnem maior sofrimento, motivado por vários sintomas (dor, fadiga, dispneia, vómitos, confusão), pelas múltiplas perdas (físicas, psicológicas e outras) associadas à doença grave e terminal, e reduzem o risco de lutos patológicos. Devem assentar numa intervenção interdisciplinar em que pessoa doente e família são o centro gerador das decisões de uma equipa que idealmente integra médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais. O que esta equipa pretende fazer é intervir activamente naquilo que a pessoa doente manifesta ser para ela uma fonte de sofrimento. Nessa medida, convém relembrar que os doentes em fim de vida não sofrem apenas pelos sintomas físicos, mas por muitos outros aspectos – as tais ‘perdas’ já aqui referidas.

Como responder a estas situações de sofrimento, o que têm os cuidados paliativos para oferecer? A sua intervenção, sendo obviamente personalizada e adaptada a cada caso, assenta em quatro pilares fundamentais:

❥ saber controlar os vários sintomas que os doentes apresentam (e não apenas a dor), utilizando medidas farmacológicas (medicamentos) e não farmacológicas;
❥ saber comunicar adequadamente com o doente e a sua família, usando obrigatoriamente estratégias para a promoção da sua dignidade;
❥ prestar apoio à família, detectando os seus problemas, as suas necessidades, mobilizando também as suas mais-valias e ajudando-a a lidar com as perdas, antes e depois da morte do doente;
❥ saber trabalhar em equipas multidisciplinares, integrando o trabalho dos diferentes profissionais e voluntários, todos devidamente treinados, para dar resposta às múltiplas necessidades dos doentes e seus familiares.

(…) a prática dos cuidados paliativos não se esgota, como infelizmente algumas vezes se diz, ‘na administração de morfina’. Deve, entre outras coisas, procurar garantir-se a operacionalização da esperança – através da concretização de metas realistas e enquadradas dentro da situação clínica do doente e pelos desejos e valores do mesmo. Deve também efectivar-se a dignidade nas suas diferentes esferas, por exemplo, envolvendo o doente nas opções a tomar, respeitando as suas crenças, valorizando a sua coragem perante as perdas experimentadas e reforçando os papéis que, apesar de doente, pode e deve continuar a desempenhar. Não se devem escamotear as diferentes limitações que o doente experimenta, mas deve sempre ‘ajudar o doente a ajudar-se’, focalizando-nos também naquilo que ele ainda é capaz de fazer. Um doente, nesta como noutras fases, será sempre muito mais que as suas limitações.”

Isabel Galriça Neto