(Hoje a partilha é do Nuno a quem agradeço, e acredito que todos agradecemos, por se partilhar connosco desta forma tão pessoal, permitindo uma viagem igualmente íntima.)

“Há batalhas na vida que sabemos, logo à partida, que não conseguiremos vencer. Mas, perante os obstáculos, o que nos distingue muitas vezes não é o resultado final, mas a dignidade com que os enfrentamos, e a forma como somos derrotados.

O tempo não espera por ninguém. Quando percebi que a situação com a minha querida avó se deteriorava a largos passos, fui incapaz de continuar com o mesmo estilo de vida, longe de tudo e todos. Tinha que voltar. Sabia que o que nos esperava seria uma longa e árdua batalha, onde a sua situação se complicaria progressivamente, e de uma forma impiedosa, mas mais do que preocupar-me com o meu presente e futuro, cumpria fazer com que estes seus últimos meses fossem passados com o maior calor e a maior dignidade possíveis – era o que tinha de ser feito.

Ao longo de todos estes meses, os desafios foram imensos. Assistiu-se, com cada dia que passava, à perda de mais uma faculdade, ao adensar das dificuldades até nas coisas mais simples. E, sempre que éramos confrontados com tal, sentíamos algo a apertar, bem cá dentro. Não por não o podermos fazer em sua vez, mas por perceber que a D. Ana queria fazê-lo, mas já não conseguia. Doía-lhe a alma; e a nossa também, perante tamanha impotência.

Perdeu-se a conta a tudo o que se fez. Às idas ao hospital, às refeições dadas, ao tratar da sua higiene, às vezes que a máquina lavou a roupa suja depois de pequenos acidentes, às dores nas costas por levantá-la, às noites em que mal se dormiu, aos momentos delicados em que precisávamos de ir respirar um pouco, para podermos voltar a dar-lhe o nosso melhor. Aos dias passados com a televisão na RTP1, a ver/ouvir a Praça da Alegria e os programas duvidosos da tarde. O que se fazia, mais ou menos glamoroso, era indiferente. O importante era o ela sentir que não estava sozinha, e que estava com pessoas que queriam o seu melhor, sempre.

(…); a D. Ana partiria no final da noite. Uns dias antes, durante uma tarde, eu estava deitado ao lado dela e, como sempre fazia, passei-lhe a mão pela cabaça, acariciando-a. Ela assustou-se, por estar meia a dormir e não ver a minha mão.
– Ó filho, o que é que eu tenho na cabeça?
– é a minha mão, Vovó. queres que a tire?
– não, não (pausa). assim até fico mais descansada.

Voltou a fechar os olhos, e a dormitar. O Amor podia não mudar nada da doença, mas mudava a sua forma de estar. Ela não pedia muito, se não esse Amor. Se estava sozinha por mais de 10m, estranhava automaticamente – e nunca estava sozinha. Foi por isso que, quando partiu, partiu em paz. Tanto eu como a D. Olivia estávamos com ela. Eu tinha uma mão no seu coração, outra a tocar-lhe o rosto, e sorria-lhe. Queria que, aquando do seu último fôlego, visse não só as caras dos seus fieis escudeiros, mas também uma cara que lhe trouxesse tranquilidade, e que com isso percebesse que o Amor, que todo o nosso Amor, estava lá, só com ela. Podia não mudar o desfecho, não. Mas fez com que ficasse mais descansada.

A batalha com a doença foi eventualmente perdida, como sabíamos. E isso dói imenso, dói até demasiado. Mas, olhando para trás, só posso agradecer a honra que foi poder fazer tudo o possível pela minha querida Avó, acompanhado pela minha grande Mãe. Foram dos meses mais difíceis, mas mais bonitos da minha vida, aprendi a amar de uma forma completamente diferente. E, hoje, posso já não pegar com a D. Ana directamente, e ouvi-la reclamar comigo por dizer disparates, mas mesmo que não vá daqui dar-lhe um beijo de boa noite na sua testa, fecho os olhos, respiro fundo e sinto a sua mão tocar-me no cabelo. E, com isso, fico mais descansado, também, e volto a sorrir. (…)” por Nuno do Carmo