Enquanto pessoas que vivem umas com as outras é importante percebermos o que é mais relevante para aqueles que (con)vivem connosco. Somos seres de decisões e contudo existirá provavelmente um momento na nossa vida em que estaremos entregues aos cuidados de outros e aos seus pareceres e tomadas de decisões. Sabemos isto, à partida, e no entanto fugimos da possibilidade de encontrar as melhores soluções para que tenhamos dignidade quando esse momento chegar, porque implica uma “conversa difícil”.

Quando cuidamos de alguém devemos ir para além de meras interpretações dos seus desejos, de forma a podermos ampará-la de forma adequada. Não como nos parece ou gostaríamos que fosse, mas como o outro quer e deseja. Temos inclusíve desejos sobre os nossos desejos.

Perante isto hoje trago um desafio. Durante os próximos quinze dias, sem desculpas de tempo, vamos agendar um encontro (ou mais, conforme necessidade) com a(s) pessoa(s) significativa(s) da nossa vida. Aquelas de quem um dia poderei ficar ao cuidado ou a cuidar. E proponho uma “conversa difícil”, mas importante, à volta da mesa, com a seguinte linha orientadora:

1 – Quais as coisas que gostarias mesmo de fazer durante a tua vida?
2 – Até onde estás disposto a ir para te manteres vivo e a partir de que patamar é que deixa de ser tolerável estar vivo. O que é para ti vida com qualidade? (Queres ser reanimado? Queres tratamentos agressivos como entubação e respiração artificial? Ser alimentado por sonda gástrica ou de forma intravenosa se não conseguires comer pelos teus próprios meios?)
3 – O que é fundamental para ti para te sentires útil e realizado?
4 – Se morresses amanhã, o que seria importante para ti que estivesse resolvido?
5 – Se morresses amanhã existiria alguém com quem gostarias de te ter reconciliado? Há alguma coisa que gostasses de ter dito a alguém?
6 – Se não tivesses capacidade para decidir sobre a tua vida/saúde, quem gostarias que tomasse decisões por ti?
7 – Onde gostarias de passar os últimos tempos da tua vida? Num lar? Num centro de dia? Em tua casa? Com quem?
8 – Se pudesses escolher, preferias morrer em casa, num hospital? Quem gostarias de ter ao teu lado?
9 – O que pensas sobre a vida depois da morte?
10 – Existe mais alguma coisa que aches importante que eu saiba, se amanhã não tiveres capacidade de o partilhar?

Com estes encontros criamos a possibilidade de ter conversas com aqueles que nos são queridos, sobre o que querem e o que não querem, antes de elas ou nós mesmos sermos apanhados por uma crise ou medo, frente a uma doença ou outra situação semelhante. A solução para uma morte mais digna passa, muitas vezes, por algo tão simples e complicado como esta conversa. De forma a podermos evitar sentimentos finais como: “Oh não, eu não sei o que ele quer!”

Precisamos saber até onde as pessoas estão dispostas a ir para se manterem vivas e a partir de que patamar é que deixa de ser tolerável estar vivo. Ainda que possa parecer absurdo para alguns (inclusive para o filho que nunca achou que o pai um dia iria responder algo assim) há quem um dia tenha respondido: “Bom, se conseguir comer gelado de chocolate e ver futebol na televisão, estou disposto a manter-me vivo. Se essa possibilidade existir, então estou disposto a sofrer muito.”

Perante esta resposta e perante uma “conversa difícil” um filho soube que decisão tomar quando o pai se encontrava no bloco operatório e os médicos tiveram de o consultar. O pai teve uma hemorragia e para os médicos lhe salvarem a vida teriam de voltar a abri-lo, contudo a hemorragia já o tinha deixado quase tetraplégico e ele ficaria incapacitado durante muitos meses e provavelmente para sempre. O que fazer? Que decisão tomar? A verdade é que a decisão já estava tomada pelo pai. Perguntou aos cirurgiões se caso o pai sobrevivesse se viveria de maneira a conseguir comer gelado de chocolate e ver futebol na televisão e eles responderam que sim. Então deu autorização para o pai voltar para o bloco operatório. Se a conversa não tivesse existido antes a decisão do filho poderia ter sido outra passando o resto da vida a flagelar-se pela decisão e podendo condenar ao pai a algo que não fora ele a escolher.

O porquê de poucas pessoas conversarem acerca destas questões? É que podem suscitar emoções difíceis como a raiva ou fazer as pessoas sentirem-se derrotadas, mas quando “bem conversadas” permitem poupar tempo e dar continuidade à dignidade de cada um. Para além de poderem reforçar laços.

Se queremos ser pessoas autónomas até ao fim da nossa vida devemos procurar garantir que mesmo não podendo controlar as circunstâncias da vida, podemos sempre tentar controlar o que fazemos com elas. Esta é uma forma de tentar que a nossa vontade seja cumprida até ao fim. Devendo contudo, as respostas a estas questões ser revistas e partilhadas novamente de tempos a tempos e sempre numa partilha mútua e de confiança.

Termino reforçando o desafio. Nos próximos quinze dias. Sem depois, nem amanhãs que podem não chegar. E desafio ainda cada um a comentar como foi viver esta experiência. Somos mais de mil neste grupo, já imaginaram, se cada um fizer isto com os seus, a quantidade de pessoas que ganham a possibilidade de acompanhar aqueles que lhe são próximos de forma mais digna e capaz, certamente com menor sofrimento? E se cada um para além de aceitar este desafio convidar outro alguém a fazê-lo? Vamos contribuir para um número maior de fins de vida com dignidade? Contribui.

Que este tipo de desafio possa se tornar “virais” contribuindo para que o tema da morte não seja um tabu. E se trabalhas em hospital, centro de saúde, etc, porque não convidar ou orientar as pessoas a esta partilha?