Os cuidados paliativos ainda que pouco conhecidos e divulgados ‘iniciaram-se’ em Portugal no ano 1992 com a inauguração de uma Unidade de Dor (Fundão) tendo contudo sido feita a primeira abordagem já no ano de 1969 em Londres com a inquietude de Cicely Saunders (enfermeira/médica) e o seu programa de cuidados paliativos domiciliários. Desde então o que é que temos feitos?

Até ao século IV a.c. não se considerava ético tratar a pessoa doente durante o seu processo de morrer. Os médicos tinham medo de o fazer, pelo risco de serem castigados por estarem a desafiar as leis da natureza. Após a propagação do cristianismo, estabelece-se a necessidade de ajudar estas pessoas, surgindo a primeira instituição em Roma (por Fabíola) de forma a os ajudar, como resultado do seu compromisso cristão. Mais tarde, nos meados do século passado, Cicely Saunders constatou que a tendência era de ocultar o prognóstico e situação clínica às pessoas doentes, que o local de morte estava a transferir-se para o hospital e que se verificava cada vez mais uma ‘repressão’ da expressão em público das emoções perante a morte, o que revelava que a sociedade tinha perdido as estratégias de enfrentamento da sua própria mortalidade.

Hoje em dia, mais de 115 países dos 234 existentes têm já um ou mais serviços de cuidados paliativos.

Mas afinal o que são cuidados paliativos?

Os cuidados paliativos são cuidados que se dirigem mais à pessoa doente que à doença. Aceitam a morte, mas procuram melhorar a qualidade de vida. Procuram constituir uma aliança entre a pessoa doente/família e os prestadores de cuidados através da honestidade e de um acordo partilhado de prioridades e objetivos com discussão das opções terapêuticas e da aceitação ou recusa dos tratamentos preocupando-se mais com a ‘reconciliação’ (relações positivas consigo mesmo e com os outros, com o ambiente e, se crentes, com Deus) do que com a cura. Morrer reconciliado contempla que existiu e se tornou real a possibilidade de se encerrarem as cinco tarefas de final de vida: de se dizer a todos os intervenientes ‘gosto muito de ti’, ‘perdoa-me’, perdoo-te’, ‘obrigada’ e ‘adeus’.

Na última metade do século XX a cura foi de tal forma ‘entronizada’ como fim único da Medicina, que quase se esqueceu o verdadeiro mandato da mesma: acompanhar as pessoas doentes em sofrimento, quer elas se curem quer não. O que os cuidados paliativos vieram retomar foi precisamente a necessidade de assegurar que as pessoas em fim de vida não sejam incorretamente tratadas e confinadas a um sofrimento que ninguém deseja. Os cuidados paliativos são assim importantes de forma a ajudar a pessoa doente a viver tão activamente quanto possível até ao fim. Centram-se na importância da dignidade da pessoa ainda que vulnerável, limitada e doente, aceitando a morte como uma etapa natural da vida que, até por isso, deve ser vivida intensamente até ao fim.

Assim os cuidados paliativos são a ‘medicina do crepúsculo’. E a palavra paliativos vem do latim palliāre que significa ‘cobrir com capa’ e não podia ter melhor significado. Nos paliativos procura-se amparar a pessoa doente, cobri-la, ser teto para esta no meio da tempestade. Cuidados paliativos são assim cuidados que procuram melhorar a qualidade de vida das pessoas doentes e das suas famílias, que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado (a família deverá sempre estar incluída neste modelo de cuidado e ao longo do tempo abordaremos isto melhor), através da prevenção do sofrimento, com recurso à identificação precoce e tratamento dos problemas não só físicos, nomeadamente a dor, mas também dos psicológicos, sociais e espirituais. Procuram ser cuidados ativos e totais (cuidados holísticos que olham a pessoa doente como um todo, em todas as suas dimensões) perante uma pessoa cuja doença não responde à terapêutica curativa, sendo primordial o controlo da dor e outros sintomas, problemas sociais, psicológicos e espirituais: cuidados interdisciplinares que envolvem a pessoa doente, a família e a comunidade nos seus objectivos e que devem ser prestados onde a pessoa doente deseja ser cuidada (em casa ou hospital, etc), afirmam a vida e assumem a morte como um processo natural e, como tal, não antecipam nem adiam a morte assim como procuram preservar a melhor qualidade de vida possível até à morte.São cuidados direcionados para a intervenção no sofrimento.

Sabias disto?

E como os cuidados paliativos não se conseguem resumir a um só texto, mais para a frente continuaremos a clarificar a sua atuação e propósito. Não é bonito pensar num modelo de cuidados assim? Divulga para podermos chegar a mais.