Lembro-me de ler isto e de ficar espantada. Lembro-me igualmente de voltar a ler e de fazer todo o sentido.

“Ao longo dos nossos cem mil anos de existência – à excepção dos últimos duzentos anos – o tempo médio de vida dos seres humanos foi de trinca anos ou menos (estudos indicam que os cidadãos do Império Romano tinham uma esperança de vida média de vinte e oito anos). O normal era morrer antes da velhice. Aliás, ao longo da maior parte da História, a morte era um risco em qualquer idade e não estava minimamente relacionada com a velhice. Como escreveu Montaigne, observando a vida do final do século XVI: ‘Morrer de velhice é uma morte rara, singular e extraordinária, e tão menos natural do que outras: é o último tipo de morte e o mais extremo.’ Por isso, hoje, com a nossa duração média de vida a ultrapassar os oitenta anos em grande parte do mundo, somos seres singulares a viver muito para lá do seu tempo designado. Quando estudamos o envelhecimento, o que estamos a tentar perceber é, não tanto um processo natural, mas um processo não natural.”

Como acontece com um brinquedo que se estraga ou uma central elétrica que deixa de funcionar o ser humano muitas vezes deixa se ser eficiente com os componentes de primeira linha optando por soluções que permitem que continue a trabalhar, não olhando muitas vezes ao “como”. Somos sedentos de quantidade (de dias) ao invés de olhar à qualidade daquilo que vivemos.

Temos um rim extra, um pulmão extra, dentes extra, etc. Normalmente arranjamos cópias extra, uma substituição daquilo que se estragou.

Perante isto, “à medida que se acumulam os defeitos num sistema complexo como é o corpo humano, chega uma hora em que basta só mais um defeito para que o todo fique debilitado, resultando numa condição conhecida como fragilidade. Acontece a centrais elétricas, automóveis e a grandes empresas. E acontece-nos também: um dia, basta só mais uma articulação danificada ou mais uma artéria calcificada para dar cabo de nós. Esgotam-se os backups. Desgastamo-nos até já não haver mais nada para desgastar. Isto acontece de mil e umas maneiras. O cabelo torna-se grisalho, por exemplo, simplesmente porque se esgotam as células de pigmentação que dão ao cabelo a sua cor. (…)

Mais de metade dos muito idosos vive atualmente sem um cônjuge e nunca tivemos tão poucas crianças na sociedade, e no entanto, praticamente nem pensamos na maneira como vamos viver os nossos derradeiros anos de vida sozinhos. Igualmente preocupante, e muito menos conhecido, é o facto de a Medicina ser lenta a enfrentar as mesmíssimas mudanças pelas quais foi responsável, ou a aplicar o conhecimento que temos sobre como melhorar as condições da velhice. (…) …quer o admitamos quer não, muitos médicos não gostam de cuidar dos idosos.

‘Os médicos comuns não gostam de Geriatria, porque não têm as capacidades necessárias para lidar com «caco velho». O «caco velho» velho é surdo. O «caco velho» é cegueta. A memória do «caco velho» possivelmente está debilitada. Com o «caco velho», temos de falar devagar, porque ele pede para repetirmos o que estamos a dizer ou a perguntar. E o «caco velho» não tem só uma queixa principal: o «caco velho» tem quinze queixas principais. Como é que podemos lidar com todas elas?! É de mais. Além disso, ele queixa-se de uma série dessas maleitas há cinquenta anos ou mais. Não vamos conseguir curar nada que uma pessoa já tenha há cinquenta anos. Tem a tensão alta. Tem diabetes. Tem artrite. Não há charme nenhum em tratar nenhuma destas coisas.’

Há, todavia, uma maneira específica de o fazer, uma metodologia profissional. Podemos não conseguir resolver estes problemas, mas podemos geri-los.”

Perante isto é importante lembrarmo-nos que a velhice é uma consequência de muitas das nossas decisões e “avanços” na medicina e que por isso devemos tentar responsabilizarmo-nos pelas consequências que advém das nossas escolhas. Quando reclamo da fragilidade em fim de vida, que medidas optei para chegar aos meus últimos dias com tamanha fragilidade? Que morte me espera se os meus últimos dias de vida foram todos em volta de processos pouco naturais? Quando optamos por quantidade ao invés de qualidade estou a optar pelo quê? Se até há bem pouco tempo a média de esperança de vida era trinca anos e se eu já ultrapassei este número o que estou a fazer com os meus dias e como lido com a minha saúde e as avarias que vão surgindo no meu sistema chamado corpo humano? Alguma vez pensamos nisto de forma individual e como sociedade?