“Todas as pessoas que sofrem uma perda passam por estádios semelhantes. Começam com o choque e a negação, revolta e raiva e, depois, a tristeza e a dor. Em seguida, discutem com Deus. Ficam deprimidos, perguntam: ‘Porquê eu?’. E finalmente retiram-se para dentro de si mesmos durante algum tempo, separando-se dos outros, enquanto se tudo correr bem atingem um estádio de paz e aceitação (não de resignação, o que acontece quando as lágrimas e a raiva não são partilhadas). (…)

A negação é uma defesa, uma forma normal e saudável de lidar com as más notícias horríveis, inesperadas e súbitas. Permite que a pessoa considere o possível fim da sua vida e volte depois à vida como sempre foi.

Quando a negação deixa de ser possível, é substituída pela raiva. O paciente, em vez de perguntar ‘Porquê eu?’, passa a perguntar ‘Porque não ele?’. Este estádio é especialmente difícil paras as famílias, médicos, enfermeiros, etc. A raiva do paciente dispara em todas as direcções. Há fragmentos por todo o lado. Atingem toda a gente. Enraivecem-se contra Deus, contra a família, contra toda a gente que esteja saudável. O paciente pode também desatar a gritar: ‘Estou vivo e não se esqueçam disso’. A sua raiva não deve ser tomada pessoalmente.

Quando se permite aos pacientes expressarem a sua raiva sem sentirem culpa ou vergonha, passam muitas vezes a um estádio de negociação. (…) Depressa notei que as promessas que as pessoas faziam a Deus nunca eram cumpridas. Elas negociavam mesmo, subindo sempre a parada. Mas o tempo passado a negociar é benéfico para quem toma conta deles. O paciente, embora zangado, já não está de tal modo consumido pela hostilidade que não consiga ouvir. O paciente não está deprimido ao ponto de já não conseguir comunicar. Podem continuar a disparar, mas já não é para acertar. Eu aconselhava que essa era a melhor altura para ajudar os pacientes a completar os seus assuntos pendentes. Vão para os quartos deles. Confrontem as velhas zangas. Acrescentem gasolina ao fogo. Deixem-nos expressar a sua ira, deixem-nos soltar-se e, então, os velhos ódios transformar-se-ão em amor e compreensão.

Numa altura qualquer, os pacientes encontrar-se-ão profundamente deprimidos com as enormes mudanças que estão a ocorrer. Naturalmente. Quem não ficaria? Ou porque a sua doença já não pode ser negada ou porque graves limitações físicas surgiram. Com o tempo, poderão surgir também cargas financeiras. Há por vezes mudanças drásticas e debilitantes na aparência da pessoa. Uma mulher fica preocupada por a ablação de um seio a fazer parecer menos mulher. Quando as preocupações deste tipo são aberta e francamente enfrentadas, os pacientes reagem na maior parte das vezes de uma forma impecável. O tipo de depressão mais difícil ocorre quando um paciente compreende que vai perder tudo e toda a gente que ama. É uma espécia de depressão silenciosa. Neste estádio, não há lado bom das coisas. Nem existem palavras de conforto que possam ser proferidas para aliviar o estado de espírito que consiste em perder o passado e estar a tentar imaginar o inimaginável futuro. A melhor ajuda é deixar a tristeza ao paciente, dizer uma oração, dar-lhe simplesmente um ligeiro toque ou apenas sentarmo-nos com ele na cama.

Se os pacientes tiverem a oportunidade de expressar a sua raiva, de chorar e de lamentar, de terminar os seus assuntos inacabados, de articular os seus receios, de trabalhar os estádios mencionados, atingirão o último estádio de aceitação. Não ficarão felizes, mas já não estarão deprimidos ou zangados. É um período de resignação sossegada e meditativa, de pacífica expectativa. A luta prévia desaparece e é substituída pela necessidade de muito sono (…) ‘o descanso final antes da longa viagem’. ”

(modelo de Elisabeth Kübler Ross – as cinco fases do luto)