Os adultos têm dificuldade em lidar com o sofrimento no geral, e talvez mais com o sofrimento das crianças. Quanto mais pequena é a criança, mais os adultos tentam protegê-la.

Contudo uma superproteção, contrariamente ao esperado, acaba por ter o efeito contrário, desprotegendo. Isto porque impede o desenvolvimento de capacidades para enfrentar a realidade.

Num processo de luto, quando morre alguém, acaba por acontecer, muitas vezes, o mesmo. Ao invés de se falar abertamente com a criança, tendo em conta o seu processo evolutivo, isola-se a criança colocando-a ao cuidado de outros familiares e vizinhos.

Se a criança pergunta o que aconteceu surge a negação como resposta, levando a criança a criar falsas ilusões e fantasias. Este processo mental da criança pode ser ainda mais doloroso e criar maior sofrimento para esta.

Quanto mais tarde surgir a verdade maior será o tempo de solidão, mentira, tristeza e raiva por não se ter despedido ou por não ter tido a possibilidade de fazer tudo o que desejava.

A negação, à criança, de uma comunicação verdadeira priva-a da possibilidade de aprender o que é o ciclo da vida. Esta atitude é uma usurpação do direito da criança a crescer e a ficar mais madura.

“A não comunicação emocional pode provocar falsas crenças na criança. Relate-se o exemplo de um menino de seis anos que nos confidenciava em grande segredo: ‘Sabes? A minha mãe não gostava do meu pai…’. Questionando sobre a razão que o levava a dizer isso, referia que ‘Ela não chora…desde que o meu pai morreu ela nunca chorou… nunca a vi chorar… por isso, de certeza que não gostava dele…eu choro muitas vezes, mas é com os meus bonecos, com os meus ursinhos… porque gostava muito dele e sinto muito a sua falta…’. A mãe deste pequenino fechava-se no seu quarto depois de ele adormecer e chorava… e sofria!”

Por isso aqui ficam algumas sugestões para ajudar uma criança em luto:

❥ ser completamente honesto;

❥ ainda que possa ser muito difícil é importante dar a notícia da perda logo que possível. Procurar um espaço tranquilo, com a presença de pessoas significativas para a criança, utilizando palavras simples, sensíveis e sinceras (exemplo: ‘Hoje ocorreu algo muito triste… o avô [nome] morreu e não estará mais connosco, pois deixou de viver…’);

❥ explicar como ocorreu a morte, respondendo às perguntas da criança, com palavras poucas, mas sinceras (exemplo: ‘Como sabias o avô [nome] estava muito doente há muito tempo… a doença que tinha fez com que ele morresse… as pessoas quando estão muito doentes podem morrer… e foi isso que aconteceu com o avô [nome]’);

❥ permitir que a criança participe nos rituais fúnebres, perguntando-lhe previamente se quer participar nas cerimónias (respeitando a sua decisão para que não se sinta posteriormente culpada), e questioná-la sobre o que pensa encontrar, por exemplo, quando for ao velório, ajudando-a a centrar-se na realidade e não no seu imaginário (exemplo: ‘Quando for ver o avô no caixão ele ainda me vai dar um beijinho’ – ‘Não, [nome], o avô morreu e as pessoas quando morrem não dão mais beijinhos, quando morrem não se mexem mais.’);

❥ promover a expressão de sentimentos (exemplo: ‘É normal chorares’, ‘Quando estamos tristes podemos chorar’, ‘Chorar não torna as pessoas mais fracas’, ‘Também sinto a falta do avô [nome] e, por vezes, choro.’)

❥ manter-se física e emocionalmente perto da criança.

Todas estas intervenções e ajuda aplicam-se também no acompanhamento da criança à pessoa doente. Falar com a criança, permitir-lhe estar presente e questioná-la sempre onde deseja estar e o que julga que vai encontrar (por exemplo numa visita ao hospital); ajudando-a a viver a realidade, passando por ela juntos – adultos e crianças – para que não fique nada por viver, nada por dizer, nada por chorar, nenhum lugar por visitar.