(mestre espiritual budista e conferencista)
“Não haveria a mínima hipótese de se familiarizar com a morte se ela acontecesse apenas uma vez. Mas felizmente a vida não é mais do que uma dança contínua de nascimento e morte, uma dança de mudança. Sempre que ouço o murmúrio de uma corrente de na costa água a cair da montanha, as ondas do mar a rebentarem ou a minha própria pulsação, ouço o som da impermanência. Estas mudanças, estas pequenas mortes, são os nossos elos vivos com a morte. Elas são a pulsação da morte, o bater do seu coração, instigando-nos a abandonar todas as coisas a que nos agarramos.
Assim sendo, vamos trabalhar com estas mudanças agora, em vida: esta é a melhor forma de nos prepararmos para a morte. A vida pode ser cheia de dor, sofrimento e dificuldades, mas todas estas experiências são oportunidades que nos são entregues para nos ajudar a avançar no sentido de uma aceitação emocional da morte. Só quando acreditamos que as coisas são permanentes é que nos privamos da possibilidade de aprender com a mudança.
Se nos isolarmos desta possibilidade, tornamo-nos fechados e acabamos dominados pelo apego, que é a fonte de todos os nossos problemas. Uma vez que a impermanência é para nós sinónimo de angustia, agarramo-nos desesperadamente às coisas, apesar de tudo mudar. Sentimo-nos aterrorizados por as largar, aterrorizados, de facto, por sequer viver, na medida em que aprender a viver é aprender a abandonar. E esta é a tragédia e a ironia da nossa luta pela permanência: não só é impossível como acarreta precisamente a dor que pretendemos evitar.
A intenção que está por detrás do apego pode não ser má por si só; não há nada de errado com o desejo de ser feliz, mas aquilo a que nos agarramos é falível por natureza.
(…)
Interiorizar de facto a impermanência é libertarmo-nos gradualmente da ideia de apego, da nossa visão correta e destrutiva da permanência, da falsa paixão pela segurança sobre a qual construímos tudo. A pouco e pouco, apercebemo-nos de que todo o sofrimento que atravessámos por nos agarrarmos a algo que não podemos conservar foi, no sentido mais profundo, desnecessário. Inicialmente, isto pode também ser difícil de aceitar, porque nos parece tão estranho. Mas à medida que refletimos, e que continuamos a refletir, o nosso coração e a nossa mente passam por uma transformação gradual. O desapego começa a parecer-nos mais natural e torna-se cada vez mais fácil. Pode demorar bastante tempo até nos darmos conta da extensão da nossa insensatez, mas quanto mais refletimos, mais desenvolvemos a visão de nos desprendermos; é nessa altura que ocorre uma mudança no modo como encaramos tudo.
Contemplar a impermanência por si só não é suficiente: tem de lidar com ela na sua vida. Tal como os estudos médicos exigem tanto a teoria como a prática, a vida também é assim; e na vida o treino prático é aqui, é agora, no laboratório da mudança. À medida que as mudanças ocorrem, aprendemos a encará-las com uma nova compreensão; e embora continuem a acontecer tal como antes, algo em nós será diferente. Toda a situação será agora mais descontraída, menos intensa e dolorosa; e até mesmo o impacto das mudanças que atravessamos nos parecerá menos impressionante. Com cada mudança sucessiva, compreendemos um pouco mais, e a nossa perspetiva sobre a vida torna-se mais profunda e mais ampla.”