(testemunho pessoal)
“Quando o médico disse num tom nervoso, e mesmo assim com timbre a empatia, ‘infelizmente não tenho boas notícias’, na minha cabeça começaram a tocar todas as taças tibetanas que já ouvi na vida. Aquele som de embalo e de paz imensa que nos percorre cada célula do corpo. O meu, naquele momento, tornou-se tão leve que foi como se eu o tivesse deixado por uns minutos. De repente, tudo fazia sentido. Tudo fazia sentido, até eu olhar para o lado e o ver com os olhos carregados de lágrimas- o meu camone. As minhas soltaram-se, rebeldes como sempre, e escorreram-me apressadamente em direcção à boca seca, escondida por detrás da máscara. Perdoem-me a repetição, mas não somos mais do que peças de um puzzle enorme e complexo. Há que ter a humildade para reconhecer isso, aceitar as vezes em que somos postos no lugar errado à hora errada, e deixarmo-nos levar pela fé que no fim havemos de encaixar no lugar ao qual pertencemos. Sempre fui uma pessoa com uma intuição enorme, e raramente esta me tem falhado ao longo dos anos. Eu sabia que havia outra razão para eu ter sentido e proferido em voz alta, à meia noite do dia 1 de Janeiro de 2020, que este seria um grande ano para mim. A viagem e o trabalho que eu queria fazer em São Tomé, a adopção dos filhos que espero vir a abraçar, a viagem à Índia e ao Nepal para comemorar os meus 40 anos, esta urgência em querer viver tudo e todos. Eu sabia, no fundo do meu coração, eu sabia. O meu nome é Sofia, tenho 39 anos e fui diagnosticada com cancro da mama. Vou continuar a dançar pela vida fora… enquanto houver música, os meus pés não têm porque parar!”