(psicóloga em cuidados paliativos)

“Max, a sua mãe, acaba de completar os 84 anos quando, bruscamente, compreende que a sua vida acabou. É numa sexta-feira. Regressa do mercado de Saint-Tropez, pousa o cesto no chão e a evidência impõe-se. Não o arrumará. Algo se acaba de produzir nela: uma certeza de ter chegado ao fim do caminho, uma súbita e tranquila aceitação da morte.

Max é uma mulher pouco vulgar, uma personalidade independente, voluntariosa e obstinada. Uma verdadeira irlandesa. Escolheu viver os últimos anos da sua vida numa autocaravana de um parque de campismo da quase ilha de Saint-Tropez. Uma forma de viver autónoma, numa espaço suficientemente pequeno para não ser demasiado difícil de manter, rodeada pelos vizinhos, pessoas generosas. Christopher vai regularmente de Paris para a ver. Passa dois ou três dias com ela, nunca mais do que isso, porque ela rapidamente se torna insuportável. Tem o hábito de viver só e zela ciosamente por essa liberdade. É um traço dominante do seu carácter. Por nada deste mundo quereria viver em casa dele e ainda menos numa casa de repouso.

Esta vida simples, autónoma, relativamente solitária, próxima da natureza, quase ascéptica porquanto ela se desembaraça das coisas que a estorvam, convém-lhe. Uma vez por semana desloca-se, com o cão na sua 4L laranja, ao mercado de Saint-Tropez. Para comprar pão, queijo e alguns legumes. Para saudar algumas caras conhecidas. Viveu também uma parte da sua vida numa quinta junto da aldeia de Gassin, apaixonada pela agricultura biológica, aplicando à cultura das suas vinhas os princípios de Rudolph Steiner. Em resumo: quando a conhecemos respeitamo-la.

Nessa sexta feira, portanto, Max decide deitar-se e esperar que ‘a morte a venha procurar’. Quando Christopher lhe telefona nessa tarde, ela anuncia-lhe que está pronta para morrer. Ele inquieta-se, procura compreender. Não é que ela já não queira viver, mas a sua vida acabou. Está como que saciada dos dias. É tempo de se ir. Ela diz isso muito seriamente, muito serenamente, sem tristeza. O que é que a fez sentir isso?, pergunta ele. Uma infinidade de pequenos sinais. A vida abandona-a. Tudo começou com a morte do seu cão, envenenado por caçadores. Max ficou muito afectada com isso. Depois, alguns dias mais tarde, quando tinha ido ao bosque para apanhar ramos não soube encontrar o carro. Perdeu-se. Um automobilista apanhou-a a vaguear à beira da estrada e levou-a para o parque de campismo. Christopher pensou, na época, que era talvez altura de ela deixar o carro e parar de conduzir. Fora talvez um sinal esta aventura! Parece que essa decisão de não conduzir mais a aliviou. E depois, nesse mesmo período, queixou-se de perder a memória. Planos inteiros da sua vida que desapareceram. Todas estas coisas que a abandonavam pouco a pouco, o cão, o carro, a memória, tudo isso a perturbava. Teria ela pensado que estava no início da doença de Alzheimer? É possível. Ela está lúcida a esse ponto.

-Pronto! Cumpri o meu tempo, fiz o que tinha a fazer, estou pronta para partir para ‘outra’ – diz ao filho que imediatamente sente que ela fala a sério!

Haverá um elemento de depressão nesta determinação em esperar que a morte a venha procurar? Como não se interrogar? Talvez se sinta inútil? Ou demasiado só? Talvez tenha medo de se tornar uma carga para ele? Ele faz-lhe todas estas perguntas. É verdade que ela já não se sente propriamente ‘útil’.

-Sabes muito bem que se é útil por aquilo que se ‘é’, não por aquilo que se faz – diz-lhe ele, procurando tranquilizá-la.

Mas a verdadeira razão pela qual ela decidiu deitar-se e cessar de se alimentar é porque quer morrer consciente, em casa, de morte lúcida e aceite. Enquanto puder ainda dirigir o seu destino. Sentirá talvez os sinais de uma rápida decadência? Ter-se-á talvez imaginado numa cama de hospital, tratada e alimentada contra a sua vontade? ‘Porque é que se terá de esperar ter uma doença para morrer?’, perguntou ela.

Christopher conhece a mãe. Quando decide alguma coisa, nada nem ninguém a pode fazer mudar de opinião. É muito teimosa. Ele não procura, portanto, dissuadi-la. Só a obriga a prometer que faça uma coisa: beber. Que ela pare de comer, aceita-se! Mas ele não quer que ela se desidrate. Passam-se alguns dias.

Quando se apercebe que ela não volta atrás na sua decisão, Christopher visita os vizinhos do parque de campismo. Assume então a penosa tarefa de lhes explicar a vontade da mãe. Pede-lhes que a respeitem, que não procurem hospitalizá-la à força. Ela não o suportaria. Seria uma violência inútil. Ele está certo de que se ela se encontrasse hospitalizada, procuraria pôr violentamente fim aos seus dias. Convencer os vizinhos não é fácil. Têm o sentimento de que lhes pedem que aceitem um suicídio lento. Sem dúvida que o é, mas é a sua escolha e há que respeitá-la.

Precisa, em seguida, de encontrar um médico que aceite vir vê-la e zelar para que ela não sofra. É uma mulher. Christopher desresponsabiliza-a. Depois vai encontrar duas duas enfermeiras e pede-lhes que a visitem todos os dias para lhe darem os tratamentos necessários. Previne-as de que ela provavelmente as vai pôr na rua, é, aliás, o que ela faz da primeira vez, mas elas regressam e ela acabou por aceitar a sua ajuda. A partir do momento em que ela começa a enfraquecer seriamente, vêm todos os dias fazer-lhe a toilette. Ela não sofre.

Christopher vai todas as semanas vê-la. Falam imenso, de mil coisas, ligeiras e profundas. Ela espera calmamente que a morte a venha procurar, é assim que ela menciona a coisa. Só uma vez a tentação de comer uma maçã a aflorou, mas ela aguentou-se bem.

Um dia, já mesmo no fim, um médico que visitava um outro doente do parque de campismo fica a par da história. Pretende envolver-se. ‘Está a arriscar-se muito!’, diz ele, ameaçando o proprietário do parque com uma denúncia por falta de assistência a uma pessoa em perigo!

Parece que os vizinhos o expulsaram do parque. Uniram-se para defender a liberdade de Max. A verdadeira humanidade, para eles, era respeitar a liberdade desta velha mulher moribunda, e não hospitalizá-la contra a sua vontade.

Ela não teria suportado uma hospitalização, toda a gente estava bem convencida disso. Tê-la-iam entubado para lhe introduzir uma sonda gástrica para a alimentar à força. Ela teria arrancado tudo e, por fim, morreria na revolta e com violência. Mais valia respeitar as coisas tal como ela as queria.

Uma coisa é certa: isso passou-se efectivamente. Nada de dores nem de complicações. Apenas uma vida que se apagou suave e lentamente. ‘Demasiado lentamente’, dizia ela. ‘Dois meses para morrer, é muito!’ Aconteceu, por fim, numa manhã, quase de surpresa, nos braços dos vizinhos.

(…) Em torno dela, apenas as pessoas que a acompanham e que respeitam a sua escolha, pessoas que lhe dão aquilo que tão pouco se sabe dar àqueles que morrem, a permissão de morrer.

-Como passas tu os teus dias? – pergunta-lhe Christopher.

– Loving, I suppose! (A amar, suponho) – responde-lhe ela com um sorriso.”