(psicóloga em cuidados paliativos)

“Uma casa silenciosa no bosque. Tudo está na bruma. Uma mulher morre e o filho acompanha-a. O homem é jovem e sólido. Ei-lo que ergue o corpo débil e descarnado da mãe e a leva nos braços robustos. Ela, enfraquecida até ao extremo, abandona-se. Vê-se o seu rosto cavo que se ilumina com uma luz muito suave que lhe vem do interior. Um bem-estar, seguramente, de se sentir assim amparada pelo corpo pujante e pleno de vida do filho que outrora pusera no mundo. Sente-se esse íntimo prazer do abandono. Levando a mãe, leve e pesada ao mesmo tempo, o jovem surge do meio das árvores em cuja clareira a casa está escondida. Parou. Ela ergueu os olhos para a folhagem. Ver as folhas das árvores antes de morrer! Qual a enfermeira um pouco atenta que não ouviu já este desejo da boca de um doente agonizando entre as quatro paredes de um quarto de hospital! Agora o homem segue por um carreiro escavado que serpenteia pelo campo. Detém-se muitas vezes no que parecem ser as estações imaginárias de um caminho de cruz pessoal. Ou, então, as etapas de uma espécie de rito de despedida da natureza. Ei-lo que pousa suavemente a mãe sobre a erva da berma e aproxima uma flor do seu rosto. Mais adiante, é contra uma árvore que a deixa apoiar-se com todo o seu corpo. A face encostada ao tronco, parece escutar a vida. O caminho continua, o olhar pousa delicadamente uma última vez sobre os campos envoltos pela bruma, o céu húmido, a água de um tanque ao longe. Escurece de repente, compreende-se que a hora está próxima. O homem traz então a mãe de volta para casa. Espera-o um grande leito quadrado sobre o qual a depõe. Mas, antes de a estender, ajoelha-se sobre o leito, na penumbra, e instala-se apoiado à mãe. Não a aperta contra si, sufocando-a com um gesto desesperado, como muitas vezes se vê fazer em semelhantes circunstâncias. Não! Em vez disso, vem colocar-se atrás dela, para lhe oferecer o seu dorso como último apoio e envolve-a ternamente nos seus braços. Está ali para lhe dar força para morrer, não para a reter. Assim, ela sente-se apoiada, continuando livre. O seu rosto não está mergulhado na opressão que a manteria presa. Está virado para o futuro. Para essa obscuridade suave que desce sobre o quarto. O momento da separação chegou. O jovem estende a mãe no centro do leito, de mãos juntas, e depõe-lhe um leve beijo na testa. Sai, com as costas um pouco curvadas e envereda pelo carreiro. Acompanhou-a até ao limiar, até ao extremo limite. Para além dele, cada um deve franquear por si a passagem, ele sabe isso. Ela repousa serena, as mãos sempre unidas. Uma borboleta veio pousar sobre um dos seus dedos. Bate debilmente as asas ao ritmo da sua respiração que se esgota. Dir-se-ia que a acompanha e depois voa.”

Do filme Meré Et Fils (Mãe e Filho) de Alexandre Sokourov