(psicóloga em cuidados paliativos)

“No ser humano, a respiração exprime sem cessar o estado de alma e as emoções profundas. No agonizante que luta contra a morte observa-se, geralmente, uma respiração caótica e ruidosa, expressão da angústia extrema. Observei muitas vezes, no decurso de dez anos passados à cabeceira de moribundos, como o facto de me aproximar de uma pessoa, manifestando claramente a minha presença sem angústia, causava uma modificação na sua respiração. Na sua extrema solidão, o moribundo procura viver um ‘estar junto’ que o pacifica. É por isso que responde a esta presença que vem na sua direcção com uma sincronização da sua respiração. Este ‘estar junto’ numa respiração que se harmoniza é uma experiência particularmente comovente quando se está próximo de alguém que vai morrer. Por vezes acontece que, encontrando por fim um pouco de paz no meio do caos, o agonizante abandone a luta e possa, por fim, morrer. Muitas vezes as pessoas estão prontas a morrer e desejam-no, mas o corpo não cede e luta pela sobrevivência, uma vez que tem um medo animal da morte. Assiste-se então a agonias penosas. Para se soltar, para se abandonar com confiança à morte, parece ser necessário sentir-se em segurança, como estivemos todos no começo da nossa vida, amparados no balanço da nossa mãe, quando estávamos no seu colo. A nossa pele guardou essa memória, muito antiga, do prazer, da segurança de se ser transportado. Uma memória anterior ao nascimento. Em seguida, enquanto esperavam que tomássemos a nossa autonomia, foram os braços de homens e mulheres, mais ou menos amantes e ternos, que pegaram em nós. É, portanto, uma experiência que todos tivemos, à qual vamos beber, na maior parte, a força de nos desenvolvermos, a coragem de viver e a capacidade de, pela nossa vez, ampararmos os outros. A ternura, a atenção, os cuidados que tomamos uns dos outros enraízam-se nesses primeiríssimos momentos da nossa vida. No outro extremo, a doença ou a idade avançada conduzem-nos para as primeiras margens da dependência. Perdemos as nossas forças, as do nosso corpo, que precisamos de confiar às mãos dos outros, mas também, por vezes, as do nosso espírito. Já não dominamos as nossas emoções que transbordam por todo o lado. A angústia abraça-nos. São os tormentos da agonia. Seria necessário soltar-se, confiar-se, abrir-se para deixar passar aquilo que é demasiado penoso conter. É esta ‘deiscência’ do ser (em botânica, o termo deiscente descreve ‘órgãos fechados que se abrem por si mesmos para libertarem o seu conteúdo’. Foi retomado em filosofia na expressão ‘deiscência do ser’) que os nossos moribundos não conseguem viver. Não sem terem perto de si um ser humano capaz de absorver a sua angústia e de acolher a sua alma inquieta.”