(médica de família)

“Não me consigo lembrar da primeira vez em que vi a Maria. Parece-me que ela sempre existiu. Lembro-me da forma como brincávamos quando eu era criança. Lembro-me como ria e da ternura do seu sorriso. Lembro-me da sua alegria quando me licenciei em Medicina. Quando me tornei médica de família ela pediu-me para ser a sua médica e eu aceitei. Por essa altura eu não podia imaginar o que iria acontecer anos depois. O tempo foi passando sobre nós, mas a Maria envelheceu com toda a sua alegria de viver e uma saúde excelente. Viajava muito, fazia ginástica de manutenção, dava apoio a organizações socio-caritativas e reunia-se com os amigos duas ou três vezes por semana. E, de súbito, ficou extremamente doente, com dores muito intensas ao nível da coluna dorsal e lombar. Feito o diagnóstico de metástases ósseas, e em risco de lesão medular, foi decidido fazer radioterapia de urgência. Maria só sabia de problemas graves nas vértebras, mas não sabia o verdadeiro diagnóstico. Como dizer a uma mulher inteligente que tem que fazer radioterapia sem lhe dizer a verdade? (Em Portugal, e por essa época, os especialistas hospitalares não diziam aos pacientes toda a verdade). Como lidar com a Maria, sentada à minha frente, dizer-lhe da urgência do tratamento, sem a deixar arrasada? Quando lhe disse o diagnóstico de «tumor ósseo» ela olhou-me nos olhos e disse «Se não me tivesses dito a verdade nunca mais acreditaria numa palavra tua». E eu aprendi a importância de dizer ao doente a verdade, toda a verdade que ele(a) é capaz de suportar. Ainda hospitalizada, quando a visitei nos primeiros dias, o rosto contraído, ela pediu «Podes dizer aos teus colegas que continuo a ter dores? Eu acho que eles estão a dar o seu melhor, mas tu és a minha médica de família…» E eu aprendi como é importante ser o advogado do doente. Ao falar com os colegas hospitalares percebi que a Maria estava a fazer analgésicos on demand, e que não lhe tinham prescrito morfina por terem receio de uma paragem respiratória. (Não estou a falar de uma unidade de cuidados paliativos – por essa altura não havia nenhuma – estou a referir-me a um hospital universitário, onde os mitos da morfina ainda eram uma realidade). Após uma longa discussão administraram à Maria a primeira dose de morfina. Algumas horas depois, ao acordar, a Maria sorriu e disse-nos «Há mais de um mês que não dormia tão bem». E eu aprendi a importância de o alívio dos sintomas ser um objectivo prioritário para os cuidadores. Alguns dias depois, foi-lhe feito o diagnóstico de tumor do cólon, e à Maria foi dito que «poderá tratar-se de um polipo do intestino, mas tem que ser operada». Quando a visitei na véspera da intervenção, encontrei uma mulher tensa, visivelmente em grande sofrimento psíquico. «Não tenho medo da operação, nem sequer do diagnóstico. Vivi bem a minha vida, fui feliz e penso poder afirmar que alcancei os meus objectivos. Mas porque é que toda a gente entra em evasivas ou se afasta quando pergunto se pode tratar-se de um tumor maligno?». Por essa altura, apenas consegui prometer-lhe que eu própria lhe diria a verdade, logo que pudesse, fugindo também a dar uma notícia que para ambas seria dolorosa. No entanto não o fiz, e os dias foram passando, até que cerca de quinze dias depois a Maria me perguntou directamente «Podes dizer-me o diagnóstico? Tu és a única que não me mente.» E eu disse-lhe o diagnóstico e o prognóstico, e falámos da possibilidade de uma morte próxima. No final, a Maria disse, com uma voz tranquila «Agora já não me sinto tão perdida. Parece-me que sou de novo dona dos últimos dias da minha vida.» E eu aprendi a importância da comunicação para o processo de luto do próprio doente. O tempo passou e a Maria foi piorando. Apesar da radioterapia ficou paraplégica e a alta hospitalar foi adiada. A família não a abandonou, mas recusava-se a falar com ela da morte próxima. «Não conseguimos falar na morte com alguém que fez sempre parte das nossas vidas, e que há apenas algumas semanas parecia vender saúde.» A comunicação com a família em sofrimento levou-me muito mais tempo, até se sentirem à vontade para falar com a Maria sobre as suas recordações, o seu desgosto e o futuro sem ela. No dia em que o fizeram, ela afirmou que, a partir dali «Posso viver em paz os últimos dias da minha vida». E eu aprendi a importância de facilitar o processo de comunicação. Maria morreu dois dias depois. Nas últimas horas pediu-me «Toma conta da minha família». E eu compreendi que os cuidados paliativos não terminam com a morte do doente. Na sua forma única e muito especial de viver, a Maria mostrou-me o que há de mais importante nos Cuidados Paliativos: dizer ao doente a verdade; ser advogado do doente; alívio da dor – objectivo primordial para os cuidadores; o papel da comunicação no processo de luto do doente; melhorar as competências em comunicação; os Cuidados Paliativos vão para além da morte do doente. E fiquei-lhe muito grata por isso.”