(escritor, psiquiatra)

“Muitos relatos de mudanças dramáticas e duradouras, catalisadas por um confronto com a morte, reforçam este ponto de vista. Enquanto trabalhava intensamente, ao longo de um período de dez anos, com doentes que enfrentavam a morte provocada pelo cancro, descobri que muitos deles, em vez de sucumbirem ao terrível desespero, agarravam a oportunidade, sofrendo uma transformação positiva e profunda. Reorganizavam as suas prioridades, banalizando o trivial da vida. Assumiam o poder que detinham, de não fazerem as coisas que não tinham vontade de fazer. Comunicavam mais intensamente com aqueles que amavam e davam muito mais valor aos pormenores do dia-a-dia – as mudanças das estações do ano, a beleza da Natureza, o último Natal ou passagem de ano. Muitos deles deram-me conta de como o seu medo dos outros tinha diminuído, de como sentiam mais vontade de correr riscos e de se preocuparem muito menos com a possibilidade de serem rejeitados. Um dos meus pacientes comentou, com ironia, que ‘o cancro cura a psico-neurose’, enquanto outro me confessou: ‘Que pena ter tido de esperar até o meu corpo estar despedaçado pelo cancro para aprender a viver…!’ ”