(escritor, psiquiatra)

“…Agnes, uma mulher às portas da morte, inundada pelo terror e pelas dores, suplica por contacto humano. As suas duas irmãs estão profundamente afectadas pelo sofrimento e morte iminente de Agnes. Uma delas desperta para o facto de que a sua própria vida tem sido ‘tecida de mentiras’. Mas, nem uma nem a outra conseguem encontrar coragem para tocar em Agnes. São as duas desprovidas da capacidade de intimidade com outro ser humano, até com elas próprias, e ambas se afastam em pânico da irmã que morre. Só Anna, a empregada da casa, está disposta a abraçar Agnes, pele contra pele. (…) O leitor não poderá conectar-se ou dar seja o que for de importante aos que morrem, à semelhança do que Anna faz, a menos que esteja disposto a enfrentar os seus próprios medos, equivalentes aos de quem morre, juntando-se-lhes num território partilhado. Ser capaz de fazer este sacrifício pelo outro é a essência de um acto de verdadeira compaixão e que traduz empatia. Esta disponibilidade para experimentar a nossa própria dor, em sintonia com a de alguém, tem feito parte da tradição curativa, tanto secular como religiosa, ao longo dos séculos. Mas não é fácil conseguir dar este passo. Como as irmãs de Agnes, a família ou os amigos mais chegados de um moribundo podem estar desejoso de ajudar, mas serem incapazes de o fazer; podem sentir, por exemplo, que estão a intrometer-se na vida do doente ou temer que o seu gesto só acrescente mais preocupação a quem sofre, por lhe lembrar coisas tristes, melancólicas, ou alertá-lo para o facto de que o seu fim se aproxima. Muitas vezes acaba por ser quem está a enfrentar a morte que tem de abrir a discussão, falando dos medos e dos receios que sente. Se o leitor está a morrer ou armadilhado num imenso pânico acerca da morte, e os seus amigos e familiares se tornaram distantes e parecem fingir que não vêem o que se passa, sugiro que se agarre ao ‘aqui e agora’ e procure ser o mais directo possível, dizendo, por exemplo: ‘Noto que não me responde quando lhe falo dos meus medos. Mas ajudava-me imenso se fosse capaz de o fazer. Será que é pedir de mais, custa-lhe mesmo muito?’.”