(escritor, psiquiatra)

“A solidão potencia a angústia de morrer. Demasiadas vezes, a nossa cultura cria cortinas de silêncio e isolamento em redor dos que morrem. Na sua presença, os familiares e amigos geralmente ficam mais distantes porque não sabem o que dizer. Temem perturbar a pessoa. Evitam também aproximar-se demasiado, por medo de confrontarem os seus medos pessoais acerca da sua própria morte. (…) …não só os que estão bem tendem a evitar os que morrem, como os que estão a morrer muitas vezes contribuem para o seu próprio isolamento. Adoptam o silêncio de modo a não arrastarem os seus amados para o seu mundo deprimido e macabro. (…) Claro que tal isolamento torna o medo ainda mais forte e real. Como William James escreveu há um século, ‘não poderia ser inventado um castigo mais diabólico, mesmo que tal coisa fosse fisicamente possível, do que ser lançado para o seio de uma sociedade e permanecer absolutamente invisível aos olhos de todos’. …a solidão existencial, é mais profunda e advém do desfiladeiro intransponível entre o indivíduo e as outras pessoas. Esta fenda é consequência não só de cada um de nós ter chegado absolutamente sozinho a este mundo, e de ter de sair dele igualmente sozinho, como também do facto de habitarmos um mundo interior que só nós conhecemos em absoluto. (…) …o isolamento existencial refere-se ao medo que cada um tem de perder não só a sua vida biológica, como também o seu mundo rico e maravilhoso, que não existe igual na cabeça de mais ninguém. As minhas memórias mais pungentes – enterrar a cara no casaco fofo da minha mãe, que tinha sempre um ligeiro cheiro a cânfora; a troca de olhares (cheios de excitantes possibilidades) com as raparigas da minha escola primária, no Dia dos Namorados; jogar xadrez com o meu pai e pinochle com os meus tios, em cima de uma mesa com um tampo de cabedal encarnado e as pernas torneadas; construir uma banca de fogo-de-artifício com o meu primo, quando tinha vinte anos -, todas estas memórias, e muitas outras, mais numerosas do que as estrelas no céu, são minhas e só minhas e só eu posso aceder-lhes. Todas, e cada uma delas, são apenas uma imagem-fantasma que se esfumará para sempre com a minha morte.”