(escritor, psiquiatra)

“…Bárbara teve uma revelação que lhe permitiu uma nova forma de encarar a morte. Talvez a morte não fosse bem a aniquilação total. Talvez não fosse tão essencial que a sua pessoa, ou mesmo memórias da sua pessoa, sobrevivesse. Talvez o fundamental fosse que os círculos concêntricos que fora capaz de criar, o seu rippling*, persistisse através de ondas que propagavam uma ideia ou um gesto que ajudariam outros a atingir a alegria e a virtude na vida; ondas que a encheriam de orgulho e funcionariam como escudo contra a imoralidade, o horror e a violência que monopolizam os meios de comunicação social e o mundo exterior. (…) Uma das frases preferidas da sua mãe veio-lhe subitamente à cabeça: ‘Procurem-na entre os amigos’. Esta frase tinha poder: sabia que a gentileza, carinho e amor pela vida, tão característicos da sua mãe, viviam dentro dela, a sua filha única. Enquanto falava e observava as pessoas presentes, conseguia sentir, quase fisicamente, como facetas e gestos da mãe tinham inundado as suas amigas e amigos, que por sua vez passariam essa onda aos seus filhos e aos filhos dos seus filhos. (…) ‘Procurem-na entre os seus amigos’ – que conforto, que poderosa armação, dentro da qual se pode construir um sentido para a vida, reside neste conceito. (…) Dava-lhe prazer, disse-me, saber que a sua experiência poderia, de alguma maneira, beneficiar outras pessoas, até aquelas que não conhecia. (…) …há sempre alguma coisa de cada um de nós que perdura, mesmo que nos passe despercebida.

*rippling – refere-se ao facto de que cada um de nós cria – frequentemente sem intenção ou consciência de o ter feito – círculos concêntricos de influência que poderão tocar os outros durante anos, ou até gerações. Ou seja, o efeito que exercemos em alguém é por sua vez passado a outras pessoas, à semelhança das pequenas ondas concêntricas que criamos quando atiramos uma pedra a um lago, que se vão alargando, alargando até se perderem de vista, mas que na realidade continuam a um nível infinitesimal. A esperança de que poderemos deixar algo de nós, mesmo para lá daquilo de que nos damos conta, constitui uma resposta poderosa àqueles que afirmam que a nossa finitude é sinônimo de uma vida sem sentido, ou insignificante.”