(escritor, psiquiatra)

“Os meus amigos muitas vezes questionavam-me sobre o que andava a fazer. Respondia que escrevia sobre como ultrapassar o terror da morte. Fim da conversa. Salvo raríssimas excepções, ninguém voltava a fazer-me uma pergunta e minutos depois já mudáramos de assunto. Acho que devíamos enfrentar a morte como nos confrontamos com outros medos. Devíamos contemplar o nosso fim, familiarizar-nos com ele, dissecá-lo, analisá-lo, racionalizá-lo e eliminar as terríveis distorções criadas na infância relativamente à morte. É preciso deixarmos de acreditar que a morte é demasiado dolorosa para ser tolerada, que os pensamentos irão destruir-nos, que a transiência e o efémero têm de ser negados para que a verdade não tire o significado à vida. Estas negações pagam um preço – reduzindo a nossa vida interior, desfocando a nossa visão e colocando obstáculos à nossa racionalidade. Por fim, a autodesilusão apanha-nos. A ansiedade vai sempre acompanhar o nosso confronto com a morte. Sinto-a agora enquanto escrevo estas palavras; é o preço que temos de pagar pela nossa autoconsciência. Foi por isso mesmo que usei deliberadamente a palavra ‘terror’ no subtítulo (em vez de ‘ansiedade’), para deixar claro, desde o princípio, que o terror da morte pode ser reduzido a uma ansiedade diária controlável. Olhar directamente para a morte,… não só alivia o terror como torna a vida mais comovente, mais preciosa, mais vital. Esta aproximação à morte leva-nos a aprender muito mais sobre a própria vida. (…) …é minha esperança que, compreendendo, verdadeiramente compreendendo, a nossa condição humana – a nossa finitude, o nosso breve tempo na luz -, todos sejamos capazes não só de saborear a preciosidade de cada momento e o prazer puro de ser, como ainda de vermos crescer a compaixão por nós próprios e por todos os outros seres humanos.”