(escritor, psiquiatra)

“Nalguma altura da vida – por vezes na juventude, outras, bem mais tarde -, cada um de nós acorda para a sua mortalidade. Há tantos propulsionadores: um olhar no espelho que reflecte o seu queixo duplo, cabelo cinzento, ombros descaídos; a marcha imparável de dias de aniversário, especialmente aqueles que celebram décadas redondas – cinquenta, sessenta, setenta; o reencontro com um amigo que há muito não via e o choque de perceber como envelheceu; ver fotografias de si próprio e daqueles que há muito já partiram, mas que povoavam a sua infância; um encontro com a senhora D.Morte num sonho. O que sente quando tem tais experiências? O que faz com elas? Atira-se para alguma actividade frenética para tentar queimar a ansiedade e evitar o assunto? Tenta remover as rugas com cirurgia plástica ou pinta o cabelo? Decide ficar nos trinta e nove durante mais alguns anos? Distrai-se rapidamente com o trabalho ou com a rotina do dia-a-dia? Esquece todas essas experiências? Ignora o seu sonho? Faço-lhe um apelo: não se distraia. Em lugar disso, sinta esse acordar. Tire proveito da experiência. Encontre tempo para uma pausa enquanto olha para uma fotografia de si mais novo. Deixe que esse momento pungente o envolva e permita-lhe que se demore um pouco dentro de si; saboreie a sua doçura, assim como a amargura que lhe provoca. Mantenha presente as vantagens de permanecer bem consciente da morte, de abraçar contra si a sua sombra. Tal consciência pode iluminar a escuridão com a sua faísca de vida e potenciar a sua vida, enquanto ainda a tem. A forma de dar valor à vida, de sentir compaixão pelos outros, a maneira de amar seja o que for com maior profundida implica estar ciente de que estas experiências estão destinadas a desaparecer. Muitas vezes tenho sido agradavelmente surpreendido ao ver um paciente ser capaz de modificar positivamente a sua existência, já muito tarde na vida, até já muito próximo da morte. Nunca é tarde de mais. Nunca se é demasiado velho.”