(doula, assessora lactação, enfermeira em cuidados paliativos)

“Para a maior parte das pessoas é difícil falar de morte. Acho que para a maior parte de nós, é difícil largar e deixar ir. Tentamos controlar o incontrolável e vivemos sem pensar que rapidamente vamos deixar de estar cá. Será que se vivêssemos para sempre seriamos mais felizes? Será que se as leis da vida fossem diferentes e se a morte não existisse nós existiríamos como nos conhecemos? Qual o propósito da morte? Qual o seu sentido?

Aceitamos melhor o nascimento de uma criança. Vivemo-lo como um momento de grande felicidade. Mas não será também este um momento de passagem para ela? Sair de um ambiente em que se sente segura para outro totalmente diferente e inseguro? Será que quando uma criança nasce não morre também? E a mãe? Será a mesma mulher que era antes? Acredito do fundo do meu coração que o propósito da morte, como Laurie Farewell diz, é expandir o Amor.

A morte, nos dias de hoje, é negada e escondida. Mas a sua essência é a própria vida. Afastar a morte, afasta-nos da vida e de nós.

Falar da morte é falar sobre qualidade de vida, sobre escolhas. É falar sobre a nossa família, amigos, sobre as pessoas que amamos. É fazer as pazes. É escrever a história das nossas vidas como nós queremos que ela seja e não ficarmos dependentes das escolhas de outros.

Falar sobre a morte implica uma mudança grande do paradigma social porque implica começarmos a pensar pela nossa própria cabeça, a confiar na nossa intuição, a seguir os nossos passos e assumir responsabilidades pelas nossas escolhas.

Implica começarmos a falar sobre nós individualmente, mas também sobre o impacto de nós nos outros e no planeta. Implica um despertar de consciência.

Muitos de nós crescemos com a ideia que quando morremos iremos para o céu se formos bons, ou para o inferno se formos maus. Os conceitos de céu e inferno são estritamente europeus. No xamanismo, e no animismo, onde a religião (‘re-ligare’) é a Natureza, não há nenhum céu sobrenatural. Só o mundo natural existe, com os seus reinos visíveis e invisíveis. Também não há nenhum principio de maldade no Universo. Ao contrário disso, nós vivemos num Universo benigno que se interessa pelo nosso bem estar. O mal só existe nas mentes dos homens e mulheres.

Quando os missionários começaram a falar sobre inferno, os índios perguntaram onde ele era localizado. A analogia mais próxima que os padres imaginaram para descrever a localização de inferno era apontado para o solo abaixo dos seus pés. Isto confundiu os indígenas, porque eles entendem que toda a vida vem da Terra, que é nossa Mãe.

Não somos especiais por sermos humanos. Não somos únicos por sermos ‘mais fortes e dominadores’. As evidências desta nossa forma de pensar estão à vista de todos, na forma como tratamos a natureza. Somos Natureza e a Terra é nossa Mãe. É preciso, e urgente, mudarmos a nossa forma de estar connosco, com os que nos rodeiam e com a Terra.

De igual forma importante, é o crescente aumento das doenças crónicas, de evolução prolongada, que conduzem à morte, associado ao aumento da esperança média de vida, devido ao desenvolvimento da medicina, ocasionando divergências de conceitos e ideias.

Também, a negação e dessocialização da morte pela sociedade induz a que se esconda a mesma e se invista na obstinação diagnostica e terapêutica, sendo que cuidados baseados em princípios contrários, como os Cuidados Paliativos, são considerados os “parentes pobres” da medicina.

A morte é considerada pela sociedade um fracasso da prestação de cuidados. A ‘não cura’ (sendo que esta cura a que me refiro é apenas a do corpo físico, para a qual a medicina convencional está vocacionada) é encarada por muitos profissionais como uma derrota, uma frustração, uma área de não investimento.

A população em geral, também, tem muita dificuldade em aceitar a sua mortalidade, dos familiares próximos e amigos, por isso tem medo em falar sobre o assunto.

É importante, também, referir que conceitos como eutanásia e morte assistida são em muito divergentes mas referidos por muitos como sinónimos, induzindo a sociedade a erros de julgamento e tomada de decisões.

Não existe em Portugal uma política de educação para a saúde que informe e empodere a população para que tome decisões conscientes e menos baseadas no paternalismo.

Sou enfermeira e doula de coração. Terminei a licenciatura em Enfermagem, em 2002, pensando que queria trabalhar em Obstetrícia.

Nunca mais me vou esquecer do primeiro parto a que assisti e do esforço que fiz para não desatar a chorar de alegria e emoção. No entanto, a vida quis que eu seguisse outro caminho e comecei a trabalhar em oncologia. Foi uma viagem de aprendizagens infinitas e que fez de mim o que me sinto ser hoje: doula da vida e da morte. Estar em contato com doenças crónicas e assistir a infindáveis partidas trouxe-me de volta a mim. Nem sempre foi fácil porque nem todas as pessoas têm uma morte digna.

Infelizmente nem todas as pessoas morrem com sintomas controlados, porque nem todos os profissionais estão preparados para o fazer e/ou têm a humildade para pedir ajuda a quem sabe.

Infelizmente há quem acredite que a morte não existe no seu turno e abraça a distanásia como solução. Infelizmente há quem acredite que a morte não existe na vida e foge dela e da qualidade de vida que se poderia proporcionar a quem está a partir e a poderia viver de forma tranquila, amorosa, familiar, amiga.

Muitas pessoas morrem sozinhas. Existem muitas mortes tormentosas porque quem parte deixou inúmeras coisas por dizer e resolver. Por este motivo procurei formação e fiz o mestrado em dor e pós-graduação em cuidados paliativos. Acredito que o coração deve andar de mãos dadas com o nosso cérebro racional. Devem trabalhar em equipa.

Também acredito que a medicina convencional deve andar lado a lado com a não convencional.”