(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“Os Cuidados Paliativos que pratico há vinte anos, são esse processo de assistência para quem está na reta final. Às vezes, a reta final não é reta final no tempo: é a reta final da nossa vida. A condição terminal pode prolongar-se por anos. Terminalidade não é a semana que vem. A condição terminal não é tempo, e sim uma condição clínica que advém de uma doença grave, incurável, sem possibilidade de controlo, e diante da qual, impotente, a medicina cruza os braços. Isso pode ser vivenciado em horas, dias, semanas, meses ou anos. (…) Acompanhar alguém nesse momento é a experiência mais íntima que podemos experimentar junto a outro ser humano. Nada pode ser mais íntimo do que compartilhar com alguém o processo ativo de morrer. (…) A pessoa que morre está nua, liberta de todas as vestes físicas, emocionais, sociais, familiares e espirituais. E, por estar nua, consegue ver-nos da mesma forma. As pessoas que estão a morrer desenvolvem uma habilidade única de ver. Estar ao lado de alguém que está a morrer é desnudar-se também. (…) A morte, do outro ou nossa, será uma rara, ou até única, experiência de estarmos verdadeiramente presentes na nossa vida.”