(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

“…o problema mais difícil não é a morte, é esperar por ela. O psiquiatra francês Eugène Minkowski (1885-1972), um estudioso desse ‘tempo vivido’, explica muito bem sobre três perspectivas duais do tempo. A primeira perspectiva dual envolve a espera e a atividade. Esperar alguma coisa significa não fazer porque o resultado não depende de nós. A espera passa por uma percepção dolorosa do tempo. O segundo processo dual diz respeito à relação entre desejo e esperança. O desejo pressupõe a busca de alguma coisa que não temos. A esperança já é uma espera modificada pelo otimismo. A espera está sempre relacionada com algo que vai acontecer. A esperança pode estar em qualquer tempo. Podemos ter esperança de um resultado positivo de algo que já aconteceu. Exemplo prático: estou à espera do resultado de uma biópsia. Espero o resultado de um exame que já foi realizado, e tenho a esperança de que não seja cancro. A esperança alivia a dor nesse momento. O terceiro momento dual do tempo, e o que me encanta mais, é a prece e a ação ética. A prece é descrita como a relação com algo que encontramos dentro de nós, um espaço de comunicação com algo maior que nós: algo ou alguém sagrado, uma divindade, um deus. Esse espaço interno de comunicação com algo maior torna-nos mais poderosos. Fizemos tanto; fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Então, decidimos ligar-nos a algo mais poderoso dentro de nós mesmos e nos superamo-nos: agora há a reza. A prece tem sempre uma perspetiva de futuro bom. Para Minkowski, há diferença entre a prece e a meditação, que nos traz para o presente, e também difere da oração, que pode estar relacionada com o passado. Então ele faz a conexão dual com a ação ética. Na prece, esperamos que algo maior nos salve, resolva o problema. Na ação ética, conectamo-nos com essa força, com esse poder que existe dentro de nós e que nos leva a fazer pelo outro algo que está além da nossa vontade. É nesse momento que o humano se torna divino. Que momento é esse no nosso mundo? Um exemplo claro para mim de ação ética é quando ouço uma mãe a dizer ao filho moribundo: ‘Podes ir.’ Num primeiro instante, ela talvez tenha feito a prece pela cura, no entanto liga-se com essa força e consegue entender que o melhor não é o que ela deseja que aconteça. A mãe no nosso exemplo olha para aquele instante e entende que, para o filho, o melhor talvez seja justamente aquilo que doerá tanto se ela aceitar. Mas aceita e liberta, por amor. Quando nós nos ligamos a essa força maior e mais sagrada dentro de nós, conseguimos fazer o bem pelo outro. Genuinamente o bem. Porque é algo que tem de ser feito, mesmo que não seja o nosso desejo. Aliás, algo que acontecerá independentemente do nosso desejo. Quando permitimos que aconteça o bem, aquilo flui, e é como se fosse um tempo vivido com todo o significado de amor do mundo. No momento em que estamos ligados ao outro e dizemos, do fundo do nosso ser, da nossa essência, ‘que aconteça o melhor’, isso é poderoso. Acontece o melhor, e é rápido.”