(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

“Estar presente ao lado de alguém que precisa de Cuidados Paliativos não é viver pela pessoa o que ela tem para viver. (…) Na empatia, às vezes cega de si mesma, podemos ir na direção do sofrimento do outro e nos esquecermos de nós. Na compaixão, para irmos ao encontro do outro, temos de saber quem somos e do que somos capazes. (…) Então o primeiro passo para quem deseja envolver-se com Cuidados Paliativos é conhecer-se. Saber os seus limites. Do que se dispõe a fazer. Se essa pessoa deseja controlar a cena, e isso significa ultrapassar os próprios limites, então terá que construir nesse percurso ‘paragens’ para abastecer, beber um refrigerante, um chá, um café, encher o depósito, fazer um xixi, tomar um banho, encontrar um amigo, alguém que entenda, que acolha, para que essa pessoa possa continuar no seu caminho em direção ao outro. Sendo que esse outro irá buscar mais nela do que ela poderá dar. Então, pode passar do limite. Às vezes não temos escolha. Às vezes, é a pessoa que amamos que está a morrer, e passaremos do nosso limite. Só que, para dar conta de estar presente, teremos que atentar primeiro a nós mesmos. O ato de cuidar de alguém que está a morrer sem a responsabilidade do autocuidado é, a meu ver, uma expressão clara e absoluta de hipocrisia. Absoluta hipocrisia. Quem cuida do outro e não cuida de si mesmo acaba cheio de lixo. Lixo de mais cuidados físicos, emocionais e espirituais. E lixos não servem para cuidar bem de ninguém. Simples assim. Muitas vezes ouço relatos como este: ‘Eu cuido da minha mãe, eu cuido do meu pai, eu cuido da minha irmã, eu cuido do meu marido, eu cuido dos meus filhos. Não tenho tempo para cuidar de mim.’ E então eu digo: ‘ Não conte isso a ninguém, então! É uma vergonha. Para mim, é como evacuar nas calças. Ninguém conta: ‘Eu fiz cocó nas calças!’ É uma vergonha. Uma irresponsabilidade. E quando afirma que a vida do outro vale mais do que a sua, está a mentir: a vida do outro vale para você se valorizar. Para dizer: ‘Olha como eu sou boa pessoa! Mato-me para cuidar da vida dos outros!’ Não acontece só com pessoas comuns, acontece também entre profissionais de saúde que trabalham com isso. Que se acham boas pessoas também, mas não se cuidam. A empatia permite que nós nos coloquemos no lugar do outro e sintamos a sua dor, o seu sofrimento. A compaixão leva-nos a compreender o sofrimento do outro e a transformá-lo. Por isso precisamos de ir além da empatia. Todos nós precisamos de pessoas capazes de entender a nossa dor e de nos ajudar a transformar o nosso sofrimento em algo que faça sentido.”