(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“A experiência de perder alguém importante tira-nos a percepção que cultivámos sobre a estabilidade, sobre a segurança do nosso mundo ‘presumido’, sobre a nossa ilusão de controlo. Quando perdermos definitivamente a ligação com alguém importante, alguém que para a nossa vida representou um parâmetro de nós mesmos, é como se nos privássemos da capacidade de nos reconhecermos. Ao longo da vida não recebemos nenhum tipo de educação para sermos quem somos. Quando crianças, expressamos a verdade sobre nós e sobre o que sentimos e pensamos, mas muitas vezes a nossa família, a nossa escola e a nossa vida em sociedade fazem com que tenhamos vergonha da nossa identidade. Então precisamos da percepção dos outros para construir a nossa expressão no mundo, adequada às expectativas dos que nos cercam e às expectativas que criamos dentro de nós mesmos; ou, pelo menos, tentamos ser quem o mundo à nossa volta gostaria que fossemos. A maior parte de nós é o que os outros fazem de nós. Somos esculpidos com base na percepção do outro. O que mais fará falta na morte de alguém importante é o olhar dessa pessoa sobre nós, pois precisamos do outro com referência de quem somos. Se a pessoa que eu amo já não existe, como consigo ser quem sou? Se preciso do outro para pensar sobre o mundo, e se o outro não existe, como será o mundo em ele? Quando morre uma pessoa amada e importante, é como se fossemos levados até à entrada duma caverna. No dia da morte, entramos na caverna, e a saída não é pela mesma abertura por onde entrámos, pois não encontraremos a mesma vida que tínhamos antes.  A vida que será conhecida a partir da perda nunca será a mesma de quando a pessoa amadas estava viva. Para sair dessa caverna do luto é preciso cavar a própria saída. Por isso dizemos que existe um trabalho, algo ativo, construído em direção a uma nova vida. Cavar a saída da caverna do luto demanda ação, força, esforço. E as pessoas de luto sentem um cansaço intenso, existencial e físico. (…) Essencialmente, o luto é um processo de profunda transformação. Há pessoas que podem transformar a nossa temporada na caverna num período menos doloroso, mas não podem fazer o trabalho por nós. A tarefa mais sensível do luto é restabelecer a conexão com a pessoa que morreu por meio da experiência partilhada com ela. A revolta, o medo, a culpa e outros sentimentos que contaminam o tempo de tristeza acabam por prorrogar a nossa estadia na caverna e podem conduzir-nos a espaços muito sombrios dentro de nós. (…) Tudo o que aprendemos com aquela pessoa que morreu permanece dentro de nós. (…) No processo dual do luto, há momentos em que estamos totalmente mergulhados na dor, no sofrimento pela morte da pessoa que amamos. No outro extremo, estamos imersos na realidade, no dia a dia, a lidar com questões do quotidiano que podem ou não estar relacionadas à perda (como doar as coisas da pessoa, resolver problemas burocráticos como encerrar a conta do banco, telefone, inventário, etc). No momento extremo da dor, vem a tristeza, o choro, o desespero, a raiva. Todos esses sentimentos devem ser aceites e experimentados. Quando me perguntam se podem chorar, digo: ‘Chore, mas chore muito, mesmo. Deixe o corpo inteiro chorar, estremeça. Grite, deite-se na cama e esperneie. Permita-se, abra-se a esse encontro pleno com a dor. Aceite essa condição’. E é mágico como a dor passa quando aceitamo a sua presença. Olhemos para a dor de frente, ela tem nome e apelido. Quando reconhecemos esse sofrimento, ele quase sempre diminui. Quando o negamos, ele apodera-se da nossa vida inteira. Não existe nada de errado em ficar triste, pois a tristeza é uma experiência necessária para todo o processo de luto  saudável. (…) Se as pessoas à nossa volta nos cobram demasiado a superação, entendamos que elas sofrem por nos ver sofrer. Como não sabem estar ao nosso lado durante essa fase, e como não sabem como reagiriam se estivessem no nosso lugar. lutam com todos os argumentos para tirar a nossa dor da frente. A maioria das pessoas não sabe lidar com a tristeza de quem está a perder uma pessoa importante e muito menos lidar com o sofrimento de quem acabou de perder alguém. Querem que a pessoa de luto vá ao médico e comece a tomar antidepressivos. Querem abreviar o tempo da dor. Mas o uso indevido de medicação antidepressiva ou calmantes no período de luto pode levar a uma anestesia emocional de repercussões devastadoras. Evitam o sentimento de dor, mas também vedam a capacidade de sentir alegria. Tristeza não é depressão. Nesse tempo de extremos, quando a vida nos empurra ao encontro da normalidade, do quotidiano, podem acontecer momento de alegria e satisfação. Diante duma conquista de outro familiar ou de outra pessoa amada, pode voltar a sorrir. O problema da nossa sociedade estranha é que a alegria demais no tempo de luto também não é algo que ‘soe bem’, e é comum que as pessoas de luto se sintam mal por terem motivos e vontade de sorrir no meio de um processo de luto. Elas perguntam-me se é normal rir. E digo: ‘Se o tempo é de chorar, pode rir até chorar. Pode morrer de rir, até! É permitido ficar triste até à última lágrima, rir até estremecer.’ “