(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“Uma das aprendizagens mais fortes neste meu trabalho a cuidar de pessoas com doenças terminais é não responder a um ‘porquê’, mas a um ‘para quê’. O ‘porquê’ evoca os motivos passados e o ‘para quê’ lança-nos para o futuro. Para quê vivermos isso? Passar por uma perda pode dar-nos a percepção do tamanho do amor que fomos capazes de sentir por alguém, de como essa pessoa pode ter sido generosa ao esperar o nosso tempo de aceitar a morte dela. Na experiência da perda, é possível que finalmente entendamos quem é Deus para nós; o que é o sagrado para nós. Poderemos, enfim, saber se entendíamos a espiritualidade como algo sob o nosso comando ou como algo a que nos entregamos submissamente. As perdas que vivemos, especialmente a morte de alguém muito amado, podem ter um ‘para quê’, mas pode demorar um bom tempo até que a resposta chegue clara. Já o ‘porquê’ nunca terá uma resposta satisfatória, ainda que dediquemos a vida toda a tentar responder. Qualquer resposta que se dê a essa pergunta é sempre pequena demais diante da grandeza da experiência do luto.”