(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“Essa conversa a respeito das diretivas antecipadas, sobre o que queremos ou não para o final da nossa vida, deveria acontecer primeiro entre os nossos familiares, na hora do jantar ou do almoço de domingo. Em nome da nossa segurança e dos nossos familiares mais idosos ou adoecidos, convém que essa conversa ocorra num momento em que não exista atividade nem progressão de doença. Deve acontecer na convivência, quase num contexto filosófico; uma conversa intelectual. (…) …as diretivas valem apenas para a situação em que a pessoa padece de alguma enfermidade manifestamente incurável, que cause sofrimento ou a torne incapaz para uma vida racional e autónoma. Então ela pode fazer constar, com base no princípio da dignidade da pessoa humana e da autonomia da vontade, que aceita a condição terminal da vida e repudia qualquer intervenção extraordinária e fútil. Por outras palavras: qualquer ação médica que resulte em benefícios nulos ou demasiado pequenos, que não superem seus potenciais malefícios. A minha principal recomendação diante da vontade de fazer um documento como esse é que ele seja preenchido com o seu médico. Não há como decidir sobre intervenções médicas sem um profissional a explicar detalhadamente o que significa cada um dos termos utilizados. Fazer um documento desse porte sem a orientação adequada é como escolher um prato num cardápio escrito em chinês. (…) Na última parte do documento, a pessoa deve descrever como quer ser cuidada, abordando aspetos do dia a dia, como banho, troca de fraldas, ambiente e, finalmente, cuidados com o seu funeral. Doação de órgãos, desejo de cremação e não realização de velório também são descritos neste ponto. A melhor forma de nos sentirmos seguros em relação aos cuidados e limites de intervenção no final da vida é conversar sobre isso em algum momento durante a nossa vida com saúde. Quando se está doente, essa conversa, embora necessária, fica muito mais delicada.”