(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“A melhor forma de continuarmos vivos, apesar dessas mortes que acontecem ao longo da vida, é estar presente nelas. Se vivemos plenamente o amor, então ele pode ir embora. Se vivemos tudo o que aquela relação poderia dar, então estamos livres. Nada nos prende, não há conflito. É a entrega total à experiência que permite o desapego. Entramos naquela relação, naquele trabalho, naquela realidade com o melhor de nós; transformamo-nos, entregamo-nos àquele encontro, e num momento tudo termina. Seguimos o nosso caminho a carregar o que aprendemos, e é isso que fará com que possamos entrar noutra relação, noutro emprego, noutra carreira, noutro sonho de vida. A busca pelo controlo da situação impede a experiência da entrega. (…) Se terminamos uma relação a desprezar todo o tempo que passamos com aquela pessoa, escolhemos destruir parte da nossa vida.(…) A expectativa da perda, mesmo que ela não ocorra, ou a experiência da perda só se tornará menos dolorosa se ao longo dela nos entregarmos e nos transformarmos, e, se possível, se tivermos a oportunidade de transformar o outro. Por isso é preciso pensar muito bem antes de começar relações e torná-las definitivas. Principalmente porque nada é definitivo, exceto a experiência já vivida. (…) Quando entramos numa história nova, a melhor forma de vivê-la é pensar que vai acabar. É preciso vivê-la intensamente para que possamos dizer: ‘Valeu muito a pena! Deixei um legado, transformei… Não serei esquecido, entrei para vencer, entrei nesse emprego para dar o meu melhor, entrei nessa relação para dar o meu melhor’. O que tem de vir connosco das histórias passadas é a transformação que elas nos proporcionaram. Não levemos a história, e sim o produto da história… E a história só terá um produto se tiver mesmo havido um encontro, se realmente mergulhamos nela por inteiro. É muito mais fácil elaborar o luto de um grande amor do que o de uma relação de guerra. (…) Quando existe amor, a morte vem, mas não mata o amor. O amor não morre. (…) …por causa de um projeto que não gostávamos, o luto é muito mais caro, porque foram deixadas coisas muito valiosas: o seu caráter, o seu nome, a sua sensibilidade, a sua qualidade de vida…”