(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“Somos criados e educados para controlar a expressão dos nossos sentimentos. Para isso, usamos máscaras e disfarces. Para sermos aceites, ouvidos e compreendidos, tornamo-nos capazes de esconder muito do que sentimos. Acreditamos que ocultar sentimentos pode proteger-nos. Ao longo da nossa vida, no convívio com o outro, sentimos muita dor; por isso criamos estratégias para nos defendermos do próximo sofrimento. (…) Mas chega o momento em que tiramos a máscara e toda a gente nos vê. Estamos nus de corpo e alma. Se fomos bons só para agradar, então terá chegado a hora de entender que vamos precisar de ser realmente bons para enfrentar a solidão do fim da vida. De alguma forma, a verdade aparece sempre ao longo das nossas relações: ainda que nós mesmos não notemos que estamos a ser falsos, a outra pessoa acaba por perceber. Nesse momento, ficamos sozinhos na história, e existem muitas histórias assim no hospital. Histórias de pessoas que ajudaram muita gente e que agora se encontram ali, sozinhas. Mas elas ajudaram com um único objetivo: o de se sentirem seguras. Não construíram relações. (…) Quando escolhemos não demonstrar afeto como estratégia de defesa, ganhamos arrependimento porque vivemos experiência e sentimentos muito intensos internamente – e mantivemo-los presos dentro de nós. Privámos o outro de compartilhar os nossos grandes vulcões de transformação e ignoramos a verdade de que o encontro é o que nos transforma.  (…) O mundo interior não tem grande potencial de transformação. O que tem grande potencial de transformação é o encontro verdadeiro com o outro, porque de outro ser humano talvez recebamos as chaves de algumas portas fechadas dentro de nós; portas que guardam grandes revelações e segredos a nosso respeito. (…) A expressão do afeto é o que transforma, e sentimo-nos plenos de vida se formos instrumento de transformação. Não importa se esses afetos são ou não são bons: fazer julgamento de valor sobre o que sentimos, dizer a nós mesmos ‘Isso é bom sentir’ ou ‘Isso não é bom sentir’ pode ser muito perigoso nos tempos finais. (…) No entanto, muitas vezes, é através do afeto mau que a transformação realmente se dá. Nem sempre alcançamos as pessoas, ou somos alcançados, pelo caminho suave da alegria. É possível, e não estou a dizer que o sofrimento é o único caminho, mas é bem possível que o sofrimento tenha uma capacidade indiscutível para transformar. (…) ‘Estou magoado com a maior parte das pessoas aqui, mas ninguém sabe’ é um deles. ‘Sinto muita raiva de si, mas não lho vou dizer’ é outro. ‘Não quero falar porque não consigo, não lido bem com conflito’ é igualmente comum. Quando não demonstramos o afeto, ele fica guardado dentro de nós. A energia do afeto não evapora, especialmente quando esse sentimento parte de relações próximas. O processo de tentar curar sentimentos maus, de fazer uma espécia de reciclagem interna gera resíduos tóxicos, e muitas vezes não nos damos conta disso. O tratamento mais eficaz que existe é a expressão honesta do que sentimos. É preciso entender também que ter inimigos não é mau de todo. Às vezes é por meio deles que encontramos força e coragem para superar obstáculos. Os nossos amigos amam-nos como somos. Acreditamos que daremos aos nossos amigos o nosso melhor, mas, muitas vezes, são os inimigos que exigem o melhor. Queremos ser mais felizes, ter mais sucesso, mais força, mais tudo. Frente aos nossos inimigos precisamos de demonstrar uma força inacreditável. Situações de conflito colocam-nos diante de sentimentos difíceis e de pessoas que, aparentemente, nos causam mal. Esses confrontos podem ser uma grande fonte de transformação. o impulso para descobrirmos a potência que temos dentro de nós. Não me refiro à vingança, mas sim a uma capacidade de no apropriarmos da nossa força interior. Mesmo quando demonstramos um afeto com o qual é difícil lidar, oferecemos à pessoa do outro lado do ringue a oportunidade de também se transformar. O mais bonito é que, ao agir assim. também nos abrimos para a transformação.”