(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“Um facto bastante frequente nos hospitais e clínicas de idosos é a severa crítica ao ‘abandono’ das pessoas no seu leito de morte. Mas é muito importante não fazer juízos precipitados a respeito da solidão do doente dentro dos hospitais. Muitas pessoas pensam que alguém que tem cancro ou passou dos 60 anos tornou-se, de repente, num santo, digno de ser idolatrado e amado pela família inteira. Não é assim que funciona a vida. Cultivamos a qualidade das nossas relações, e esse cultivo determinará se vamos desfrutar de boas companhias no fim da vida – ou se ficaremos sozinhos. Qual é a verdadeira história de cada abandono? Quem é aquela pessoa que está no hospital? Quem seremos nós no hospital? Seremos um imenso poço vazio que só ofereceu e nunca recebeu nada em troca? Se na vida fomos um poço vazio, vazio ele continuará às portas da morte. Será muito difícil reconstruir relações e viver histórias de sentido depois de um caminho tão longo, tão difícil, percorrido de forma tão concretamente cruel. (…) É muito comum que, no leito de um hospital, pessoas que foram consideradas difíceis ao longo de toda a vida acabem por criar vínculos belíssimos connosco, os cuidadores e os profissionais de Cuidados Paliativos. Ainda assim, no momento em que alguém no leito de morte percebe que tomou decisões para fazer felizes outras pessoas, pessoas que nada tinham pedido e que, pior, não se satisfizeram com as decisões que lhes ofereceu, surge o arrependimento e dói muito. Uma dor que nenhuma morfina pode abrandar.”