(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

“A experiência de fim de vida é uma experiência que tem grande poder de transcendência. A experiência de transcender é sempre sagrada. É como experimentar água do mar. Água do mar, em qualquer parte do planeta, será sempre salgada. Sempre que experimentarmos o mar, será salgado. Sempre que experimentarmos a transcendência, será sagrada. Sempre. Se fosse possível entrar numa máquina de ressonância magnética no momento da transcendência, podemos ter a certeza: a área do nosso cérebro que se acenderia é a do sagrado,do que é valor, do que é bom e verdadeiro para nós. Não sei se é correto dizer que deveríamos questionar o que é sagrado para nós, o que é Deus para nós. Perguntarmos a nós próprios o que é Deus, é muito perigoso, mas isso virá quando estivermos diante de uma morte. Da nossa ou de alguém que amamos muito. Então, vale a pena preparar-se para essa avaliação final da fé. Como fica a sua fé na hora de viver os seus tempos finais e de reconhecer que a sua missão terminou? O sofrimento pode ser o gatilho da sua transformação como ser humano. Pode ser um momento de perceber uma versão totalmente nova de Deus. Se pensarmos que cada um de nós, internamente, tem um reino de Deus, cada um de nós tem uma versão inédita, pessoal desse divino. E quando achamos que sabemos tudo sobre o divino e o sagrado e nos colocamos diante de uma pessoa que está a morrer, esse Deus que mora dentro de nós vai mostrar-nos, realmente, quem é o divino e quem é o sagrado dentro de nós. O mais perigoso, porém, é quando pensamos ter certeza de que sabemos o que é melhor em relação à religião e, com isso, interrompemos o fluxo de relacionamento com o doente com base na nossa perspetiva religiosa. Isso é um desastre. Seria muito melhor se todos os profissionais que trabalhassem com Cuidados Paliativos fossem simplesmente ateus essenciais. Porque o ateu puro tem pelo menos uma curiosidade antropológica a respeito da crença do outro. O ateu verdadeiro, aquele de berço, é um sujeito da paz, que respeita a opinião e a crença de qualquer um. Ele não julga. Ele é um curioso. Os ateus convertidos, não. Eles são fundamentalistas como qualquer religioso, e fazem guerras para provar que Deus não existe. Por isso entendo o ateu convertido como uma religião, também. Uma religião que quer provar que Deus não existe. Os profissionais de saúde que querem converter o doente à própria religião podem ser perigosos. Quando se convencem de que o doente sofre por não ter escolhido o caminho que julgam ser o certo, já se declararam incapazes de compreender a grandiosidade do caminho escolhido. (…) A disponibilidade de aceitar e tentar desvendar o entendimento do outro representa o grande desafio de cuidar da espiritualidade. Por isso afirmo que, para cuidar de alguém que está a morrer, é preciso libertar-nos do nosso conhecimento, dos nossos preconceitos. Não há um caminho que todos devam percorrer, pois cada pessoa que surge diante de nós é um novo modelo de vida, um novo universo. Esse universo é algo tão grandioso, e ao mesmo tempo tão único e complexo, que expõe a nossa pequenez. Quando ajudamos as pessoas à volta, especialmente as da família, a perceber o quão grandioso é o processo de morrer, tudo fica muito claro e flui melhor. É possível entregar-se a esse fluxo do rio que vai em direção ao mar com tranquilidade, sem dúvidas, sem correr ou acelerar, sem nadar contra a corrente de nós mesmos. Acompanhamos o ritmo da pessoa que parte. Nessa interação verdadeiramente humana, a religião, na sua essência, é um caminho maravilhoso que se junta a alguma coisa sagrada dentro de si. Talvez Deus não esteja no outro ou dentro de si. Talvez a verdade seja que estamos todos ‘dentro’ de Deus. Ao longo deste tempo a cuidar de tantas pessoas incríveis, percebi que o que faz girar esse eixo de espiritualidade dentro de cada um de nós é o Amor e a Verdade que vivemos com integridade. O Amor que sentimos, pensamos, falamos e vivemos. Não importa qual é a nossa religião, não importa se acreditamos ou não em Deus. Se a nossa espiritualidade estiver sobre uma base de Amor e Verdade, vivenciados e não somente conceituados, não importa o caminho que escolhermos, a vida resultará. Sempre.”