(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“Para falarmos sobre espiritualidade, precisamos de primeiro fazer um exercício de desapego daquilo que pensamos que sabemos a respeito desse assunto. (…) A maior parte das pessoas vai dar-se conta da importância da sua religião ou da sua religiosidade quando estiver conscientemente perto da morte, seja por estar gravemente doente, seja porque alguém da família está muito doente. (…) Até trabalhar no Hospice, onde tive a oportunidade de acompanhar mais de seiscentos doentes em menos de quatro anos, os ateus de quem cuidei tiveram os processos de morte mais serenos que eu já havia acompanhado. Eram ateus essenciais, não convertidos. De todas as crenças, o ‘ateu convertido’ é o ser humano em que percebo o maior sofrimento espiritual diante da morte. Ateu convertido é aquela pessoa que um dia acreditou em Deus, que até praticava alguma religião; em algum momento, porém, Deus não se comportou bem e perdeu a sua credibilidade. A pessoa que se decepcionou com Deus decide não acreditar em mais nada e converte-se ao ateísmo. Os ateus essenciais muitas vezes nasceram em famílias de ateus ou nunca conseguiram de facto acreditar, mesmo quando crianças. No entanto, têm um grau de espiritualidade acima da média. Fazem o bem a si mesmos, ao próximo e à natureza, e praticam esse bem com tamanho respeito que é impossível não se encantar com sua qualidade humana. Como não acreditam num Deus salvador, fazem a sua parte para salvar a própria vida e a vida do planeta em que vivem. (…) Para desespero dos religiosos fundamentalistas, Deus é suficientemente grandioso para poupá-los da sua ira. Eles passaram por todo o processo de uma maneira íntegra. De uma maneira serena. E isso gera muita inquietude entre aqueles que acreditam que precisam de Deus para morrer bem, ou melhor, para serem poupados da morte. Nenhuma religião pode impedir a presença da morte. Nenhum Deus, católico, evangélico ou de qualquer outra religião, pode impedir que o corpo humano acabe. Quando falo sobre espiritualidade para plateias religiosamente hostis, a indignação é clara: ‘Como podem as pessoas morrer bem sem acreditar em Deus?’ No Hospice, tive a oportunidade de presenciar processos de morte em pessoas profundamente religiosas que também partiram com muita serenidade. E então percebi muita coisa sobre isso. A religião pode ser uma comorbidade grave, até perversa, ou uma ferramenta de cura muito profunda e eficaz. (…) É preciso ter muito cuidado com as ‘palavras’ de Deus recitadas pelos homens, pois elas falam muito mais sobre quem diz do que sobre Deus. A verdadeira resposta do sagrado é aquela que não pode ser mudada, mesmo que Deus não obedeça.”