(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“Na condição terminal humana, é comum que todos em redor da pessoa que morre a observem como se ela já estivesse morta. Mas o problema maior do mundo à nossa volta passa longe da doença física. Muita gente não está viva de facto, mesmo com o corpo a funcionar bem. É uma coisa terrível. Pessoas que enterraram as suas dimensões emocional, familiar, social e espiritual. Pessoas que não sabem relacionar-se, que têm dificuldade de viver bem, sem culpas nem medos. Pessoas que preferem não acreditar para não correr o risco de se decepcionarem, seja em relação ao outro, seja em relação a Deus. Pessoas que não confiam, não entregam, não permitem, não perdoam, não abençoam. Pessoas vivas que vivem de uma forma morta. Temos mortos a andarem livres nos ginásios, nos bares, nos almoços de família de anúncio de margarina, a desperdiçarem domingos por meses a fio. Pessoas que reclamam de tudo e de todos. Pessoas que perpetuam a própria dor ao consumirem drogas, álcool ou antidepressivos, na tentativa de se protegerem da tristeza de não se saberem capazes de sentir alegria.”