(médica geriatra, especialista em cuidados paliativos)

 

“A perspetiva subjetiva da morte é colocar-se ali, diante de um muro. Estamos a trilhar o caminho da vida, às vezes tristes, às vezes alegres; às vezes a vida está escura e não sabemos para que lado ir, mas sempre sabemos: estamos no caminho. Às vezes paramos no meio do caminho e sentamos em algum lugar, a pensar: ‘Sinto-me meio cansado, preciso de um tempo.’ Quando paramos, contemplamos o que fizemos e o que faremos a partir daquele momento. Mas, se quisermos, levantamo-nos e seguimos. Existe caminho pela frente. Quando estamos perto da morte, aquilo com que nos deparamos é um muro. Um grande amigo, Leonardo Consolim, uma vez disse que imagina esse muro muito alto e comprido, como a Muralha da China. E eu gostei dessa imagem, é com ela que me relaciono quando penso na minha morte. Não há como dar a volta, não há como escalar. E quando nos deparamos com esse muro e tomamos consciência da nossa morte, a única coisa a fazer é olhar para trás. Então, quando estamos diante da morte de uma pessoa, que fique bem claro para nós: aquela pessoa está a olhar para o caminho que percorreu e está a tentar entender o que fez para chegar até ali – e se aquela viagem valeu a pena. O que norteia o nosso caminho e nos impele a fazer boas escolhas é a certeza de que, quaisquer que sejam os nossos caminhos e escolhas, o muro aguarda-nos. Não importa o caminho, todos levam ao mesmo lugar. Então, não faz diferença se somos pessoas boas ou não: vamos morrer. Não faz diferença se somos honestos ou não: vamos morrer. Não faz diferença se amamos ou não. Se fomos amados ou não. Se perdoamos ou não. Não faz a menor diferença no resultado final. Não importa se Deus existe ou não. Os mais religiosos podem discutir comigo agressivamente sobre a última frase, mas, na verdade, a hora final somente pertence a quem morre. A depender da nossa relação com o nosso Deus, esse pode ser um dos piores momentos da sua existência ou o melhor. Se Deus existe, morremos no final. Se Deus não existe, também morremos no final. A discussão pode girar em torno do que acontece depois de morrer, mas aí já teremos passado pelo momento que consideramos o mais temido. O que vai acontecer, invariavelmente é que no final de qualquer história, de qualquer caminho, de qualquer escolha, vamos morrer. Independentemente daquilo que acreditamos que exista ou não. A única experiência da existência humana sem opção é a morte. Para todo o resto há opções: podemos fazer ou não, podemos querer ou não. Mas morrer ou não, isso não existe. O que faz a diferença dos caminhos que escolhemos ao longo da vida é a paz que sentiremos ou não nesse encontro. Se fizermos escolhas de sofrimento ao longo da vida, a paz não estará presente no encontro com a morte.”